Enquanto bloco enfrenta escassez de vacinas, UE está em conflito com AstraZeneca

Farmacêutica diz que não conseguirá entregar todas as doses encomendadas pela UE no prazo e bloco se manifesta

Charles Riley, do CNN Business, em Londres
28 de janeiro de 2021 às 15:26
Dose da vacina da AstraZeneca contra a Covid-19
Foto: Dado Ruvic/Reuters

A União Europeia está presa em uma luta complicada com a AstraZeneca sobre atrasos na entrega das vacinas.

A temperatura pode ter abaixado um pouco após uma reunião na noite de quarta-feira (28), a qual ambos os lados disseram ser produtiva, mas o problema ainda não foi resolvido e os desafios dos países da UE são grandes.

Este é o resumo da confusão: A AstraZeneca afirma que não pode entregar a quantidade de doses da sua vacina esperada pela União Europeia. A Comissão Europeia, que fez as encomendas para os estados membros do bloco, diz que é inaceitável, e que a fabricante do imunizante deve achar uma forma de suprir a demanda.

A disputa está ocorrendo em meio a um cenário extremamente complicado. Países da UE, incluindo a Alemanha, estão com estoques escassos de vacinas, e a distribuição lenta de doses dentro do bloco está ameaçando uma recuperação econômica frágil após a pandemia.

 

Os últimos acontecimentos

As tensões foram amenizadas depois da reunião na quarta-feira entre a AstraZeneca e oficiais da UE. A Comissária de Saúde da União Europeia Stella Kyriakides disse que a discussão com o CEO da farmacêutica, Pascal Soriot, teve um “tom construtivo”, mas pediu mais informações da companhia sobre suas entregas.

“Nós nos arrependemos da falta de transparência contínua sobre o calendário de entregas e pedimos um plano claro da AstraZeneca para a distribuição rápida da quantidade de vacinas que reservamos [para o primeiro trimestre]”, ela disse no Twitter.

A companhia inglesa e sueca se comprometeu a uma coordenação mais próxima após a reunião

“Tivemos uma conversa aberta e construtiva sobre a complexidade de aumentar a escala de produção da nossa vacina, e os desafios que encontramos. Nos comprometemos a uma coordenação ainda mais próxima para juntos criarmos um trajeto para a entrega de nossa vacina durante os próximos meses”, disse um porta-voz.

Os números

Viajante retornando da Ucrânia tem amostra coletada para teste de Covid-19 em Berlim
Foto: Fabrizio Bensch - 05.ago.2020/ Reuters

A disputa começou na segunda-feira (25), quando oficiais da UE disseram que foram informados pela AstraZeneca que alguns problemas de produção causariam um fornecimento “consideravelmente menor” de doses do que o acordado nas próximas semanas.

A Comissão Europeia encomendou 400 milhões de doses em nome dos estados-membro da União Europeia e espera distribuí-las pelo bloco uma vez que a vacina seja aprovada, possivelmente nesta semana.

“As companhias farmacêuticas e desenvolvedores de vacinas possuem responsabilidades morais, sociais e contratuais que precisam manter”, disse Kyriakides a repórteres na quarta-feira. “A visão de que a empresa não é obrigada a entregar [as vacinas]...não é correta nem aceitável.”

Oficiais da União Europeia negaram especificar a escala da dívida da AstraZeneca em vacinas, e a empresa também não deu detalhes. Mas o choque se desenvolveu enquanto a Comissão Europeia ainda estava tentando compreender o impacto de a Pfizer ter diminuído suas entregas na Europa da vacina que desenvolveu com a BioNTech, enquanto uma fábrica estava sendo atualizada.

O que diz a AstraZeneca

Soriot disse ao jornal italiano La Repubblica na terça-feira (26) que a AstraZeneca não seria capaz de garantir o prazo das entregas na UE pois países como o Reino Unido foram mais rápidos ao terminar as encomendas. Existem também diferenças cruciais entre os contratos assinados pela União Europeia e o Reino Unido.

“O contrato com o RU foi assinado primeiro e RU, obviamente, disse ‘vocês nos abastecem primeiro’ e isto é apenas justo'', disse Soriot. Três meses depois, quando a União Europeia queria ser abastecida ‘mais ou menos ao mesmo tempo’ que o Reino Unido, a AstraZeneca não pôde firmar tal compromisso.

“Nosso contrato [com a União Europeia] não é um compromisso contratual. É nosso melhor esforço. Basicamente, dissemos que vamos dar o nosso melhor, mas não podemos garantir que teremos sucesso. De fato, em algum momento chegaremos lá, mas agora haverá um pequeno atraso”, ele disse.

A União Europeia confirmou que assinou um contrato de “melhor esforço” com a AstraZeneca.

Não está claro se os oficiais da UE tem algum outro recurso sobre a briga contratual. Um diplomata da UE notou que a União Europeia foi rápida iniciando processos legais no passado, e estaria acionando advogados caso acreditasse que a farmacêutica estivesse fugindo do contrato.

Por que a AstraZeneca não pode produzir mais ou desviar os suprimentos?

Vacinas Oxford/AstraZeneca, desenvolvidas em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz
Foto: Cassiano Rosário/Futura Press/Estadão Conteúdo

Soriot reconheceu na entrevista que sua empresa tem enfrentado problemas em um dos locais de manufatura na Europa. Ele disse que as primeiras fases da produção de vacinas é geralmente "complicado" e a companhia está "basicamente dois meses atrás" do que gostaria de estar.

"Gostaria de fazer melhor? É claro. Mas, você sabe, se entregarmos em fevereiro o que estamos prevendo que entregaremos, não é um volume pequeno", disse Soriot. "Se estamos planejando entregar milhões de doses para a Europa, não é pouco."

A AstraZeneca disse em pronunciamento que construiu mais de uma dúzia de redes regionais para produzir sua vacina, colaborando com mais de 20 parceiros em 15 países.

"Cada rede foi desenvolvida com as visões e investimentos de países específicos ou organizações internacionais baseando-se em acordos de suprimentos, incluindo nosso acordo com a Comissão Europeia", disse.

A União Europeia sugeriu na quarta-feira que as doses produzidas nas sedes da AstraZeneca no Reino Unido deveriam ser usadas para completar sua encomenda. A AstraZeneca disse que isso só poderá acontecer quando os suprimentos do RU forem totalmente entregues.

"Assim que tivermos alcançado um número suficiente de vacinações no RU, poderemos usar essas fábricas para ajudar a Europa também", disse Soriot.

Por que a tensão está tão alta?

A pandemia ainda está se alastrando pela Europa, e muitos países estão sendo criticados pela lentidão nas campanhas de vacinação.

A Alemanha registrou um ano desde a chegada do vírus na quarta-feira (27), e o país não mostra sinais de diminuição nas infecções. No início desta semana, Portugal registrou um número recorde de mortes por Covid-19 em 24 horas. Lockdown restritivos estão sendo estabelecidos em todo o bloco.

Enquanto isso, os insumos para a vacinação na Europa estão chegando a uma baixa desesperadora.

O governo alemão espera que o país enfrente escassez em seu suprimento de doses por pelo menos mais 10 semanas, segundo o ministro da Saúde Jens Spanh. O país vacinou apenas cerca de 2% de sua população.

A situação também é crítica em algumas regiões da Espanha. O governo regional de Madrid decidiu parar de administrar primeiras doses das vacinas pelas próximas duas semanas devido a uma crescente incerteza sobre a situação dos estoques.

“Precisamos de mais doses urgentemente”, disse o vice-presidente local Ignacio Aguado.

A União Europeia e os governos nacionais estão enfrentando enorme pressão como resultado.

“Estamos em uma pandemia. Perdemos pessoas todos os dias. Estes não são números, não são estatísticas, são pessoas, com famílias, com amigos e colegas”, disse Kyriakides.

— Luke McGee contribui para a reportagem.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês).