Reguladores e concorrência nacional podem azedar lua-de-mel da Tesla com a China

Montadora foi convocada por cinco agências reguladoras da China para responder a perguntas sobre a qualidade de seus carros Model 3 feitos em Xangai

Por Laura He, do CNN Business
10 de fevereiro de 2021 às 05:00 | Atualizado 10 de fevereiro de 2021 às 10:22
O CEO da Tesla e da SpaceX, Elon Musk
Foto: Mike Blake - 13.jun.2019 / Reuters

Hong Kong (CNN Business) – A Tesla, companhia de Elon Musk, passou os últimos dois anos tentando seduzir a China em uma tentativa de conquistar o maior mercado automotivo do mundo. Agora, a empresa corre o risco de incomodar os poderosos reguladores chineses.

A montadora de veículos elétricos foi convocada por cinco agências reguladoras da China para responder a perguntas sobre a qualidade de seus carros Model 3 feitos em Xangai, de acordo com um comunicado divulgado na segunda-feira (8) pela Administração Estatal de Regulamentação do Mercado (SAMR, na sigla em inglês) do país. A agência disse que os reguladores estão preocupados com diversos problemas dos carros, incluindo "aceleração anormal" e "incêndios na bateria".

A reunião é preocupante para a Tesla. Graças ao cortejo de Musk a autoridades, a Tesla conseguiu evitar restrições pesadas impostas a rivais globais que tentavam fazer negócios na China. A empresa abriu uma de suas enormes fábricas de automóveis em 2019 com grande alarde em Xangai, e o país agora é responsável por um quinto de seu faturamento.

Nas últimas semanas, no entanto, a Tesla foi duramente criticada na China por uma série de problemas envolvendo seus carros, culminando no anúncio de segunda-feira (8).

"[Iremos] refletir profundamente sobre as deficiências operacionais da empresa e fortalecer de forma abrangente a auto-inspeção", disse a Tesla em um comunicado publicado na rede social chinesa Weibo, em resposta aos comentários da agência.

"Seguiremos estritamente as leis e regulamentações chinesas e sempre respeitaremos os direitos do consumidor", escreveu a montadora, acrescentando que "contribuirá ainda mais para o desenvolvimento saudável do novo mercado de veículos elétricos da China".

Não está claro se os reguladores pretendem punir a Tesla ou fazer alguma alteração na forma como ela opera no país. Mas a polêmica é um sinal da seriedade com a qual a China leva sua regulamentação, mesmo quando se trata de empresas que o país parece favorecer.

"É caminho perigoso para Musk", disse Dan Ives, analista de tecnologia da Wedbush Securities. O CEO "construiu relacionamentos sólidos dentro do país, mas deve se comportar bem na China".

Um forte nível de apoio

A Tesla está na China desde 2013, mas nos últimos anos estabeleceu um forte relacionamento com o governo chinês.

Em 2017, quando a montadora estava negociando com as autoridades sobre os termos para a construção de sua Gigafactory em Xangai, a Tesla conseguiu manter o controle total, o que foi um acordo incomum, uma vez que seus pares normalmente eram obrigados a fazer parceria com empresas chinesas se quisessem abrir um negócio local naquela época. (A China anunciou em 2018 que iria flexibilizar as regras do setor automotivo sobre propriedade estrangeira até 2022).

Desde então, a Tesla tem desfrutado de forte apoio governamental. A montadora foi a única fabricante estrangeira sem um parceiro local a obter uma grande redução de impostos para seus carros em 2019. A empresa também rapidamente retomou a produção durante a pandemia do novo coronavírus, graças, em parte, ao apoio do governo local.

Musk também conquistou autoridades e cidadãos chineses, e é um visitante bem-vindo no país. No início do ano passado, ele dançou no palco durante o lançamento do Model 3 produzido em Xangai, fato que se tornou viral no Weibo. O primeiro-ministro Li Keqiang disse certa vez que ficaria feliz em dar a Musk um "green card chinês", depois que o empresário norte-americano dizer que "ama muito a China".

As incursões da Tesla na China valeram a pena. A empresa vendeu US$ 6,66 bilhões (cerca de R$ 35,83 bilhões) em carros na China no ano passado, o que contribuiu em 21% para seu faturamento, de acordo com um recente relatório da empresa. Isso é mais do que o dobro das vendas de 2019, quando ainda não havia começado a fabricar veículos no país.

Uma percepção amarga

Nos últimos meses, contudo, a percepção de Tesla na China começou a azedar. Em novembro passado, a agência de notícias estatal Xinhua atacou a empresa depois que um de seus advogados escreveu a reguladores dos EUA sobre um recall na China, colocando a culpa no que chamou de "abuso do motorista".

"A Tesla passou a responsabilidade para os hábitos de direção dos usuários chineses e para a pressão regulatória", escreveu Nan Chen, da Xinhua, em um artigo de opinião publicado na Liaowang, uma revista administrada pela agência de notícias. "Esse tipo de 'arrogância estilo Tesla' não pode ser tolerada".

As críticas aumentaram no mês passado depois de um vídeo se tornar viral na China, que parecia mostrar um funcionário da Tesla dizendo a um cliente que uma sobrecarga na rede elétrica estadual causou um acidente de carregamento que danificou o carro. Uma filial local da empresa de energia responsável pela rede negou que fosse a culpada e disse à Tesla que a empresa deveria "investigar cuidadosamente a causa" dos problemas do carro.

Na semana passada, a Tesla escreveu em sua conta no Weibo que o vídeo foi editado e que o funcionário forneceu "diversos possíveis fatores" para os problemas do carro. Mesmo assim, a empresa pediu desculpas.

"Lamentamos profundamente o mal-entendido causado aos internautas e os problemas" causados às autoridades de energia, disse a empresa.

A mídia estatal, entretanto, fez coro após o incidente com a rede elétrica. No início deste mês, a Xinhua criticou a Tesla mais uma vez por sua "atitude arrogante", acusando a empresa de "passar a bola novamente".

O “Global Times”, um tabloide estatal, também criticou a empresa.

"Embora a Tesla seja indiscutivelmente a empresa norte-americana mais ativa em investimentos na China, a montadora nascida no Vale do Silício está longe de entender os consumidores chineses, como visto por sua atitude em uma série de relatórios de acidentes, incluindo explosões, motoristas perdendo o controle e freios com defeito", dizia um artigo publicado pelo “Global Times”.

Outros desafios

A pressão regulatória não é o único desafio da Tesla na China.

A empresa foi a marca de veículos elétricos mais vendida no país no ano passado, com 135,4 mil Model 3 vendidos, de acordo com a China Passenger Car Association.

Mas a concorrência está ficando acirrada. A BYD desbancou a Tesla como a marca de carros elétricos mais vendida na China no mês passado, e outras montadoras como Nio, Geely e Xpeng estão tentando se aproximar.

Embora a China tenha dado as boas-vindas à Tesla até agora, os especialistas apontam que, em última análise, os chineses têm suas próprias ambições de liderar no setor de tecnologia e em outras áreas. Em outras palavras: uma vez que as empresas nacionais são competitivas, o país não precisa mais de empresas estrangeiras.

- O escritório da CNN em Pequim contribuiu para esta reportagem.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).