Como é ter um carro elétrico no Brasil? Testamos o e-tron, da Audi

Modelo de luxo custa R$ 589 mil e tem desempenho impecável, mas falta de infraestrutura e preço alto dificultam –e muito– o acesso aos elétricos por aqui

Leonardo Guimarães, do CNN Brasil Business, em São Paulo
09 de abril de 2021 às 05:00

Já faz um tempo que ouvimos sobre os tais carros do futuro. Eles são elétricos, autônomos e voam. Enquanto os autônomos e os que voam ainda parecem pertencer a uma realidade distópica, os elétricos já estão entre nós. Mas é preciso pelo menos duas coisas para ter um carro elétrico: muito dinheiro e planejamento. 

São veículos novos, que exigiram muito investimento para serem desenvolvidos e difíceis de serem vendidos. Pensando nisso, dá para entender o motivo de o carro elétrico mais barato do Brasil custar R$ 159 mil, preço do pequeno JAC iEV20. 

Sobre o planejamento, basta lembrar que esses carros precisam ser carregados e que, além de não poder ser feito em qualquer lugar, o processo pode ser demorado. 

A reportagem do CNN Brasil Business sentiu na pele a importância do planejamento quando se dirige um carro elétrico. Testamos o Audi e-tron, elétrico de luxo da montadora alemã, que pode ser comprado por R$ 589 mil. 

Carro elétrico Audi e-tron
Audi e-tron, elétrico de luxo da montadora alemã vendido no Brasil
Foto: Divulgação/Audi

Em uma viagem rápida de Itanhaém (litoral paulista) a São Paulo, de aproximadamente 120 quilômetros, a autonomia calculada pelo Audi no modo de eficiência caiu assustadoramente –de 212 quilômetros no início do trajeto para 40 quilômetros no destino, que precisou ser alterado para encontrar um ponto de carregamento. 

Autonomia e carregamento

A autonomia do e-tron pode chegar a 436 quilômetros. O painel do carro mostra em tempo real quão longe o veículo pode ir. Trechos de subida podem assustar o motorista, com a autonomia caindo mais rapidamente que o esperado –pessoas ansiosas podem ter alguma dificuldade com isto.

Achar um lugar para carregar o seu carro elétrico não é uma tarefa tão simples, especialmente se o motorista é da zona Leste de São Paulo, como o autor desta matéria, que mora a 7 quilômetros de um ponto de carregamento –que, aliás, pertence à BMW, concorrente da Audi. 

É possível carregar o carro elétrico em casa, mas o motorista precisa ter um pouco mais de paciência. O e-tron demora, em média, 13 horas para ser totalmente carregado em uma tomada de 220 volts. 

A solução para os donos do e-tron são as “cargas de oportunidade”. Tiago Alves, CEO da Regus e Spaces, tem um e-tron e conta que não perde a chance de carregar o gigante de 2,2 toneladas. “Sempre que posso estou carregando (o carro), só ando com o ‘tanque cheio’”, explica. 

O empresário conta que é dono de carros elétricos há quatro anos e passou pelos “principais perrengues” de não ter um carro a combustão. “Existiam apenas sete carregadores e as principais rodovias não tinham estações de recarga”, lembra. 

Ele diz que hoje já não passa perrengue e defende o valor da mobilidade sustentável: “É o que me motiva a ter um carro elétrico. Já economizei o equivalente a 17 árvores da Mata Atlântica, que vivem por 350 anos”, calcula.

Carro elétrico Audi e-tron
e-tron é extremamente espaçoso e banco se ajusta ao corpo do passageiro
Foto: Divulgação;Audi

Aprendizado 

Ter um carro elétrico exige um aprendizado. Primeiro, na forma de dirigir. Isso porque o carro recupera energia quando o motorista não está pisando no acelerador, e só é preciso pisar no pedal de freio, em geral, para parar completamente o carro. É um estilo diferente de direção. 

Além disso, é preciso ter em mente que dirigir agressivamente vai gerar um consumo excessivo de energia. Ok, os carros a combustão também são assim, mas a preocupação com os elétricos é potencializada pelo baixo número de carregadores públicos disponíveis.

Dirigir um elétrico é também aprender a lidar com a ansiedade. Isso porque o indicador de autonomia não é linear. O motorista pode rodar 20 quilômetros e o painel mostra que a autonomia caiu em 40 quilômetros, o que é comum em trechos de subida, que exigem mais força do carro. 

O contrário também pode acontecer – o carro pode ganhar autonomia em trechos de descida somente com a regeneração de energia. 

Gustavo Cerbasi, consultor financeiro, escritor e dono de um e-tron, conta que fez uma viagem entre Cunha (SP) e Paraty (RJ) – trecho de 46 quilômetros – e a autonomia do carro caiu em cerca de 150 quilômetros.

“Subidas e descidas ainda são uma incógnita. Tem um aprendizado que exige planejamento”, diz Cerbasi. 

Tecnologia 

Dirigir um carro topo de linha como o e-tron é uma experiência única. Além do estilo diferente de direção que um carro elétrico exige, o modelo da Audi traz vários itens de tecnologia que não são (nem um pouco) comuns nos carros populares. 

O item que mais chama atenção do motorista é o retrovisor. Poderíamos chamá-lo de espelho retrovisor, mas estaríamos ignorando o fato de que o motorista não olha para trás por espelhos. 

O espelho foi substituído por uma câmera, e a imagem da lateral do veículo é projetada em uma tela na porta. Mesmo à noite ou em dias chuvosos, a visibilidade é excelente. Quando o motorista aciona a seta, o display fica vermelho, amarelo ou verde, indicando se é uma boa hora ou não para virar à esquerda ou à direita. 

Carro elétrico Audi e-tron
Audi substituiu os espelhos retrovisores por câmeras e colocou um painel para mostrar ao motorista o que acontece atrás dele
Foto: Divulgação/Audi

Outras funcionalidades ainda são capazes de surpreender os passageiros: ajuste automático do cinto de segurança ao corpo, sensores que projetam o movimento do carro ao manobrar e ajuste da altura do carro em relação ao chão de acordo com o modo de direção escolhido – do esportivo ao mais conservador. 

Mas nem todos os carros são tão sofisticados assim. O JAC iE20, por exemplo, é um carro de R$ 159 mil que não traz nada além do básico: ar condicionado, direção elétrica, câmera de ré e central multimídia - nada muito sofisticado para um carro desse preço.

Em geral, ter um carro elétrico no Brasil ainda é trabalhoso e caro. Pagar mais de R$ 150 mil por um carro que não oferece tanto conforto quanto os movidos a combustão pode desanimar os proprietários, mas há uma economia considerável nos gastos com combustível – ainda mais com o preço dos combustíveis subindo muito. 

A infraestrutura para os motoristas desses carros ainda precisa de muitos incrementos, mas quem investe em carros elétricos certamente está preocupado com a sustentabilidade, além de procurar uma experiência diferente de direção.  

Pode demorar, mas a infraestrutura certamente crescerá à medida que as montadoras investem nesse tipo de solução, e compradores, como Thiago Alves e Gustavo Cerbasi, se dedicam à popularização da tecnologia.