China minera mais bitcoin que qualquer outro lugar. Governo quer acabar com isto

Embora a China tenha tomado medidas para restringir o uso de criptomoedas por anos, o foco na mineração de moedas é novo

Por Laura He, CNN Business
24 de maio de 2021 às 17:07 | Atualizado 24 de maio de 2021 às 19:53
Bitcoin
Foto: REUTERS/Benoit Tessier/Ilustração

Hong Kong (CNN Business) – A China pousou sua mão pesada de repressão sobre o uso e comércio de bitcoin atacando o setor que supervisiona a mineração de novos tokens de criptomoeda.

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As novas medidas do governo chinês foram reveladas na noite de sexta-feira (21). Elas agitaram os mercados de criptomoedas no fim de semana, e pressionaram as criptomoedas a suspender alguns negócios na China, criando incerteza sobre uma etapa crítica do processo para colocar mais dessas moedas em circulação.

O vice-primeiro-ministro chinês, Liu He, disse a um grupo de autoridades financeiras na sexta-feira que o governo iria “reprimir a mineração de bitcoins e a atividade comercial” como parte de seu objetivo de alcançar estabilidade financeira. O governo não apresentou políticas específicas voltadas para mineração ou comercialização.

Embora a China tenha tomado medidas para restringir o uso de criptomoedas por anos, o foco na mineração de moedas é novo. A presença de Liu e de outros membros de alto escalão do gabinete na reunião, juntamente com as medidas tomadas no início da semana passada para ampliar a repressão às criptomoedas, indicam que o governo chinês está adotando uma abordagem mais agressiva.

Os principais mineradores de criptomoedas já sentiram o movimento. A HashCow (dona das maiores fazendas de mineração do mundo) disse no sábado (22) que deixaria de vender máquinas para clientes na China e reembolsaria qualquer pessoa que já tenha pagado uma máquina, mas ainda não tenha recebido. Acrescentou, porém, que manteria em funcionamento as máquinas de mineração de criptomoedas existentes.

“Apoiaremos ativamente todos os tipos de leis e regulamentações no país para evitar riscos regulamentares”, escreveu a empresa chinesa.

Outra mineradora chinesa, a BIT.TOP, disse que não oferecerá mais serviços de mineração para clientes na China continental.

“A partir de agora, iremos minerar principalmente na América do Norte”, escreveu Jiang Zhuoer, CEO da BIT.TOP, em sua conta na rede social Weibo no sábado. “Não vale a pena correr o risco regulatório”.

As decisões podem ter grandes consequências para as criptomoedas. Por exemplo, o valor do bitcoin é em parte determinado pelo número finito (21 milhões) de moedas que podem ser criadas. Nem todas as moedas estão em circulação, e os “mineiros” de bitcoins usam computadores para resolver quebra-cabeças complexos para criar um novo “bloco” na cadeia.

Os computadores necessários para esse processo são operados por empresas como HashCow e BIT.TOP. De acordo com uma pesquisa publicada pela revista científica “Nature Communications” no mês passado, a China é responsável por mais de 75% da mineração de bitcoin em todo o mundo. 

Em sua postagem na Weibo, Jiang, da BIT.TOP, disse que a reunião de sexta-feira sugere que o governo está tentando evitar um fluxo maciço de capital para a mineração de criptomoedas, mas que os indivíduos ainda devem ter permissão para minerar por conta própria. Ele achava que metade das máquinas do país pudesse ser suspensa como resultado das últimas ações, porque a repressão está focada em grandes fazendas de mineração.

O valor do bitcoin e das ações de empresas relacionadas a criptomoedas foram abalados após as mudanças da China.

Os preços do Bitcoin caíram até 13% no domingo (23). A moeda foi negociada pela última vez a cerca de US$ 36 mil (cerca de R$ 191,5 mil) por moeda, muito abaixo do pico de US$ 64 mil (cerca de R$ 340,5 mil) que atingiu um mês atrás, de acordo com a consultoria CoinDesk.

As ações da empresa chinesa de mineração de criptomoedas BIT Mining despencaram 23% em Nova York na sexta-feira. Já a Huobi Technology, uma bolsa de criptomoedas, despencou 22% na segunda-feira (24) em Hong Kong. A Huobi, que fornece hospedagem para mineradores e outros produtos relacionados a criptomoedas, disse na segunda-feira que suspenderia os serviços relacionadas à mineração para novos usuários na China continental “para se focar mais na expansão de nossa presença no exterior”. Ele acrescentou que a maioria dos usuários não seria afetada pela mudança.

“A Huobi sempre se esforça para cumprir as políticas e regulamentos em evolução de cada jurisdição para aderir ao nível de risco e preservar o bem-estar de nossos usuários e seus ativos”, acrescentou a empresa.

“Mais uma vez, a China mostrou quem era o grande peixe, sinalizando uma repressão aos mineradores de criptomoedas”, escreveu Jeffrey Halley, analista de mercado sênior para Ásia-Pacífico da Oanda, em uma nota na segunda-feira. O risco regulatório “agora representa uma ameaça existencial ao espaço da moeda virtual”, acrescentou.

A China há muito tempo limita o comércio de criptomoedas dentro do país, desconfiada dos riscos financeiros associados a ela. Na semana passada, observadores do mundo financeiro disseram que as instituições financeiras e empresas de pagamento não devem participar de quaisquer transações relacionadas a criptomoeda, nem devem fornecer serviços relacionados a criptomoedas a seus clientes.

As novas medidas não visam reduzir só o risco financeiro. Os computadores necessários para a mineração de bitcoins consomem uma imensidão de energia de computação e eletricidade, trazendo preocupações sobre o custo para o meio ambiente.

Somente na China, o bitcoin deve gerar mais de 130 milhões de toneladas métricas de emissões de carbono até 2024, de acordo com o estudo da “Nature Communications”. É mais do que a produção anual total de emissões de carbono da República Tcheca e do Qatar em 2016.

A produção é desastrosa para os ambiciosos planos climáticos da China. O líder Xi Jinping prometeu tornar seu país neutro em carbono em 2060, e o país já luta para conter as emissões de carbono de outras indústrias.

Algumas autoridades na China citaram as preocupações ambientais como o principal motivo para a ação. A Mongólia Interior, por exemplo, anunciou em fevereiro que encerraria todos os projetos de mineração de criptomoedas na região até o final de abril para reduzir as emissões. A província rica em carvão, que é um centro de mineração de bitcoin devido à abundância de energia barata, criou linhas diretas para encorajar os residentes a delatar empresas que eles suspeitam serem fazendas de mineração de criptomoedas.

- Jill Disis, Alexis Benveniste e Anneken Tappe contribuíram para esta reportagem.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês aqui.)