'Super quarta' pode trazer surpresa; veja o que deve acontecer com bolsa e dólar

Brasil e EUA divulgam nesta quarta-feira (16) suas decisões de política monetária

Ligia Tuon, do CNN Brasil Business, em São Paulo
16 de junho de 2021 às 04:30 | Atualizado 16 de junho de 2021 às 15:49
Roberto Campos Neto, presidente do BC, e Jerome Powell, presidente do Fed
Roberto Campos Neto, presidente do BC, e Jerome Powell, presidente do Fed.
Foto: Montagem CNN: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil e Susan Walsh/Pool via REUTERS

 

Todos os olhos do mercado se voltam para esta 'super quarta-feira' (16), quando as decisões de política monetária dos bancos centrais brasileiro e americano caem no mesmo dia.

Na véspera, o mercado financeiro operava em compasso de espera até o discurso do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, que acontece na tarde desta quarta, após a decisão da autoridade monetária.

Antes mesmo de Powelll falar, porém, o mercado já respondeu com apreensão ao anúncio do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), que disse que vai adiantar a alta dos juros para 2023 e que os estímulos à economia, por enquanto, continuam. 

Por ora, o juro dos Fed funds, que atualmente está na faixa de 0% a 0,25% ao ano desde o começo da pandemia, segue o mesmo.

A bolsa que já caía, aumentou a queda, e o dólar, que antes da decisão do Fed havia caído abaixo de R$ 5 pela primeira vez em um ano, passou a subir.

Impactos

A mudança tanto no patamar de juros quanto na injeção de liquidez no mercado pode afetar, em especial, os países emergentes, como o Brasil. É que, enquanto os juros se mantiverem baixos e os EUA continuarem com o pacote de estímulos econômicos, os ativos de risco permanecem atrativos por terem uma rentabilidade maior do que dos títulos americanos. 

Pela lei da oferta e da procura, qualquer indicação de menos dólares no mundo — ou seja, corte no pacote de estímulos (Quantitative Easing ou QE) — significa possível valorização da moeda americana no mundo, com consequências por aqui. Mas é bom lembrar que a oscilação cambial no Brasil também tem fatores internos, como avanço ou retrocesso das reformas econômicas tidas como essenciais. 

Por falar em Brasil, não há dúvidas de que os juros vão subir nesta quarta-feira, o que não está certo ainda é o tamanho do aperto monetário que será divulgado pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) no fim da tarde.

Há uma semana, a grande maioria dos economistas e analistas apostava em uma alta de 0,75 ponto percentual na taxa, atualmente em 3,5% ao ano. De lá para cá, porém, aumentou o número de pessoas que esperam uma alta maior já nesta quarta-feira.

"Já dá para ver uma divisão implícita na curva de juros futuros (uma das principais referências sobre a expectativa do mercado em relação aos próximo passos do Copom). Antes, a maioria convicta apostava numa alta de 0,75 ponto, agora, 40% já esperam alta de 1%", diz Pablo Spyer, diretor de operações da EQI Investimentos. 

Ainda assim, o analista espera alta de 0,75 ponto na Selic nesta quarta e de 1% na próxima reunião, em agosto. Vale, da MB Associados, tem opinião parecida: "Acho que o BC mantém o 0,75 ponto desta vez, mas muda a narrativa para frente, acelerando as próximas altas", diz. 

É esperado que a autoridade monetária brasileira abandone de seu discurso a "normalização parcial" dos juros, o que, na prática, significa que o aumento da taxa deverá ser mais rápido e forte em vez de moderado. Para o fim do ano, Vale espera uma Selic de 6,5%.

Assim como a inflação em alta, o ritmo mais robusto da retomada econômica nos primeiros meses do ano também influencia na visão do mercado.

"É muito provável que diante dos novos dados, tanto de atividade quanto de inflação para 2022, o BC retire da comunicação o ajuste parcial, buscando uma forma célere de reduzir os estímulos em excesso", diz Adauto Lima, economista-chefe da Western Asset no Brasil em comunicado. Sua expectativa também é uma alta de 0,75 ponto, para 4,25% ao ano nesta quarta-feira. 

Para Betina Roxo, estrategista-chefe da Rico Investimentos, ainda assim há bastante espaço para investimento em ações. "A máxima histórica do Ibovespa corrigida pela inflação seria de 150 mil pontos; então, ainda tem bastante espaço para alta. Sem contar que quando comparada a outras internacionais, a B3 está descontada", disse, no programa O Grande Debate — Investimentos.

Inflação em alta

Para o fim do ano, as previsões do mercado para a alta da Selic só sobem, acompanhando o movimento do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado para medir a inflação oficial no Brasil. A mediana das estimativas no Boletim Focos, que reúne as 100 principais instituições,  saltou de 5,75% ao ano para 6,25% nesta semana. Já tem gente, porém, esperando que a taxa chegue a 7% no fim do ano.

No início do mês, o mercado foi surpreendido com uma alta de 8,06% no IPCA de maio, a maior para o mês de maio desde 1996. O número fica bem acima do teto da meta de 5,25% previsto para este ano. O centro da meta fixado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) é de 3,75% e tem uma margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. 

Em meio a esse cenário, a expectativa do mercado para a inflação de 2021 teve sua décima alta seguida na segunda-feira, com a mediana das projeções apontando para os 5,82%.