‘Super Quarta’: Brasil define futuro da Selic, e EUA, de estímulos

Até início de 2022, já há banco que acredita que taxa pode chegar aos 9,75%

Sede do Banco Central em Brasília
Sede do Banco Central em Brasília Foto: BRUNO ROCHA/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

Juliana Eliasdo CNN Brasil Business

em São Paulo

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O Comitê de Política Monetária (Copom), colegiado do Banco Central responsável por gerir os juros do país, anuncia ao fim da tarde desta quarta-feira (22) a nova Selic, a taxa básica de juros do país.

Hoje também é esperada a decisão de política monetária nos Estados Unidos, onde o Fed (Federal Reserve) divulga seus próximos passos às 15h (horário de Brasília).

Quando a divulgação das decisões dos bancos centrais brasileiro e americano cai no mesmo dia, o mercado chama de “Super Quarta”.

Veja o que esperar:

No Brasil, é bem amplo o consenso entre os analistas de bancos, corretoras e consultorias de que a Selic ganhará um novo aumento de 1 ponto percentual, igual ao da última reunião, em agosto, e conforme o BC já havia sinalizado que faria. É um dos maiores aumentos em anos já feitos pelo Banco Central, que costuma ajustar a Selic em degraus de 0,25 a 0,75.

Com 1 ponto percentual a mais, a Selic deve subir dos atuais 5,25% para 6,25%, voltando a um nível semelhante ao do início de 2019 e ganhando espaço com folga acima dos 4,25% em que provavelmente teria parado, em fevereiro de 2020, caso a pandemia do coronavírus não tivesse alcançado o Brasil e o mundo.

A crise global que se sucedeu fez o BC brasileiro acompanhar o resto do mundo e derrubar a Selic para 2% no ano passado, em um super-estímulo à economia.

“Desde a última reunião do Copom [em agosto], o cenário da Covid melhorou, os números sobre a atividade foram mistos, mas com um viés negativo [com o PIB fraco segundo trimestre], a inflação surpreendeu negativamente (…) e o real perdeu força frente ao dólar”, escreveu o banco Goldman Sachs em relatório aos clientes, reforçando a aposta no aumento de 1 ponto agora e na continuidade da escalada dos juros até o final deste ano.

A cotação da moeda norte-americana saiu de R$ 5,15 a R$ 5,20 no início de agosto para os R$ 5,30 atualmente.

Presidente do BC acalma ânimos

Com a piora rápida da inflação – em agosto ela foi a mais alta para o mês em duas décadas e chegou a 9,7% em 12 meses -, alguns economistas até chegaram a acreditar que o aumento da Selic neste mês poderia ser maior, de 1,25 ou 1,5 ponto, ou seja, para até 6,75%.

Mas um alerta do presidente do BC, Roberto Campos Neto, na semana passada, reafirmando que a autoridade monetária “não alteraria seu plano de voo”, jogou um pouco de água fria na fervura dos ânimos do mercado. Isso colocou praticamente todas as projeções de volta nos 6,25% para esta quarta-feira.

“Em parte, a atividade mais fraca (…) pode se tornar um vetor desinflacionário adiante”, disse o economista-chefe da XP, Caio Megale, em relatório.

“O cenário externo também dá espaço para o Copom ser mais cauteloso na implementação do ajuste monetário [aumento de juros]. Os juros seguem bastante baixos no cenário global, e as incertezas na China representam um risco à atividade econômica global e à evolução dos preços das commodities.”

Todas essas pressões negativas, explicam os economistas, colocam um peso sobre a decisão do BC de não subir os juros muito rapidamente, já que juros muito altos já são um elemento que deprimem o crescimento.

Rumo aos 9,75%?

Com o novo aumento desta quarta-feira, a Selic já começa a se reaproximar do ponto que os economistas chamam de “neutro” – aquele em que os juros não estão nem estimulando e nem freando a economia, e que, atualmente, é calculado perto dos 6,5% para o Brasil.

Como a perspetiva é que ela siga subindo nos meses seguintes, o Brasil já deve começar a viver muito em breve – em 27 de outubro, mais precisamente, data do próximo encontro do Copom – com juros acima do neutro.

Quer dizer, a Selic já estará colocando um peso recessivo sobre o Produto Interno Bruto (PIB) e a geração de empregos do país.

Alguns bancos já falam até em uma Selic a 9,75% até o início do ano que vem – caso do Credit Suisse, que divulgou recentemente suas revisões para este e o próximo ano.

“Nós mantemos nossa avaliação de que acelerar [o ajuste] não é o ideal, dado que o ritmo de aperto atual já é alto. Entretanto, acreditamos que a autoridade monetária terá que fazer novos aumentos na taxa de juros à medida que o cenário inflacionário piora”, escreveu o banco.

A XP estima que os juros cheguem aos 8,5% até lá e, a equipe de pesquisa econômica do Itaú, fala em 9%.

“A nosso ver, o Banco Central está correto ao indicar que a taxa de juros deve ser elevada para patamar restritivo”, escreveram os economistas do Itaú em relatório, mencionando que há ainda vários riscos que pairam sobre o horizonte dos juros e os pressionam para continuar subindo.

“O cenário inflacionário continuou se deteriorando e os riscos permanecem elevados. A situação hídrica gera pressão sobre a inflação corrente, via aumento das contas de luz, e também sobre a dinâmica de preços do ano que vem (…). Adicionalmente, as dúvidas sobre a trajetória das contas públicas, em especial no que diz respeito ao cumprimento do teto de gastos em 2022, resultam em pressão mais duradoura sobre a taxa de câmbio”, diz o texto.

E nos EUA?

Na tarde desta quarta-feira, o Fed, banco central dos Estados Unidos, apontou para a redução de suas compras mensais de títulos “em breve” e sinalizou que aumentos de juros podem se seguir mais rapidamente que o esperado, com nove das 18 autoridades do banco projetando que os custos de empréstimos precisarão aumentar em 2022.

As ações, incluídas no comunicado de política monetária do Fed e em projeções econômicas separadas, representam uma guinada “hawkish” (mais propensa ao aperto monetário) por um banco central que vê inflação a 4,2% neste ano, mais que o dobro de sua meta, e está se posicionando para agir contra ela.

A atual meta para a taxa de juros foi mantida em intervalo de 0% a 0,25%.

Embora reconheça que o novo surto da pandemia desacelerou a recuperação de algumas áreas da economia, indicadores em geral “continuam a se fortalecer”, disse o Fed em um comunicado unânime.

Se esse avanço continuar “como esperado, o Comitê julga que a moderação no ritmo de compras de ativos pode ser em breve justificada”, disse o Fed.

A sinalização de que o Fed começaria em breve a reduzir suas compras mensais de 120 bilhões de dólares em títulos que vem fazendo para conter o impacto da pandemia era amplamente esperada.

Mas foi em sua perspectiva econômica mais ampla que as autoridades do Fed fizeram uma mudança menos esperada.

A perspectiva para a inflação saltou em 0,8 ponto percentual para 2021, a 4,2%, e a taxa de desemprego estimada para o final do ano aumentou. Por sua vez, duas autoridades anteciparam para 2022 o cronograma projetado para elevação da taxa de juros do atual nível perto de zero, o suficiente para aumentar a mediana das projeções para 0,3% para o próximo ano.

Desde o final julho as autoridades têm lidado com um conjunto conflitante de desdobramentos — sinais de desaceleração no setor de serviços, surto da pandemia e fraco crescimento do emprego em agosto, tudo somado à inflação ainda forte — e há conflito entre elas sobre como reagir.

Em sua maioria, as autoridades têm dito que a recuperação econômica continuará e permitirá que o banco central prossiga com os planos de reduzir seus 120 bilhões de dólares em compras mensais de títulos até o final do ano, encerrando as aquisições totalmente ao longo do primeiro semestre de 2022.

Mas analistas externos e especuladores esperam que o Fed seja cauteloso ao falar sobre quando exatamente a redução pode começar, e que vincule isso a uma recuperação no crescimento do emprego após um relatório surpreendentemente fraco em agosto, com abertura de apenas 235 mil postos de trabalho.

Embora os dados de emprego de agosto tenham sido fracos, os EUA criaram 1 milhão de vagas em julho e têm média de abertura de 716 mil postos de trabalho desde maio.

Ainda assim, dados de alta frequência e indicadores alternativos de emprego sugerem que os próximos dados também podem decepcionar, e os analistas da Jefferies disseram que a primeira redução real na compra de títulos provavelmente será “condicionada a um sólido ganho de emprego em setembro”.

O mercado de trabalho dos EUA ainda tem 5,3 milhões de vagas a menos do que seus patamares pré-pandemia.

Quando vier, a redução das compras de títulos marcará o início do que provavelmente será uma lenta mudança das medidas implementadas em março de 2020 para ajudar a economia durante a pandemia, em direção a uma política monetária mais normal, que eventualmente incluirá juros mais altos.

Powell — que deve descobrir antes da próxima reunião do Fed, em novembro, se o presidente Joe Biden deseja mantê-lo por um segundo mandato como liderança do banco central — enfatizou em vários discursos importantes, incluindo na conferência do Fed de Jackson Hole, que o eventual início da redução das compras de títulos não tem relação com o debate sobre juros.

*Com Reuters

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