Caso Evergrande forma novo equilíbrio na economia da China, dizem analistas

Segundo especialistas consultados pela CNN, cenário é de reestruturação radical na economia chinesa, que agora deve se voltar para investimentos em inovação tecnológica

Bandeira da China é vista em frente a logo do China Evergrande Group, em Xangai
Bandeira da China é vista em frente a logo do China Evergrande Group, em Xangai Reuters

Tamara Nassif*do CNN Brasil Business*

em São Paulo

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A dívida da Evergrande, segunda maior empreiteira da China, já ultrapassa o PIB da África do Sul. Na casa dos US$ 300 bilhões em atraso, a gigante chinesa, responsável por mais de 1.300 projetos em 280 cidades locais, se tornou a face da crise no setor imobiliário do país.

Responsável por quase 1/4 do PIB, a atividade é a que mais contribui para a economia chinesa, que enfrentou uma desaceleração no último trimestre de 2021 com os baques no setor imobiliário.

Com o default da dívida da Evergrande no final do ano, sinal de um possível calote bilionário, e uma série de outras empreiteiras menores também em apuro, analistas de todo o mundo foram levados num primeiro momento à pergunta: estaria a China diante de uma bolha de proporções parecidas a dos Estados Unidos de 2008?

Era uma possibilidade de arrepiar a espinha até alguns meses atrás, mas, com as medidas de contenção adotadas pelo governo chinês, a sombra de um “Efeito Lehmann” foi logo dissipada. Agora, segundo especialistas consultados pelo CNN Brasil Business, o que se desenha é um novo equilíbrio entre os setores que compõe o Produto Interno Bruto da segunda maior economia do mundo.

“Mais do que o caso específico da Evergrande, a quebradeira no setor imobiliário e a forma com que o governo chinês tem administrado a crise mostram uma série de mudanças estruturais drásticas na economia da China”, disse Isabela Nogueira, professora do Instituto de Economia da UFRJ e coordenadora do LabChina (Laboratório de Estudos em Economia Política da China), núcleo também vinculado à federal carioca.

Isso porque, do ponto de vista estrutural, a China tem sido há muito tempo puxada por taxas de investimento. “É o que a literatura econômica chama de um caso clássico de Investment-Led Growth, que, lá, teve o setor da construção civil como um de seus pilares essenciais. Agora, a ideia é puxar o crescimento investindo em inovação, sobretudo a tecnológica”.

É um processo que começou em 2017, com uma agenda que visa reduzir riscos sistêmicos e setores de elevada “alavancagem” – no mercado financeiro, o termo remete à relação entre as dívidas da empresa com sua capacidade de quitar obrigações. Nessa toada, ao final de 2020, o governo chinês pôs em prática uma série de políticas regulatórias batizada de “Três Linhas Vermelhas”, que coloca tetos máximos em alavancagem, endividamento e liquidez.

Limitada pela regulação, a Evergrande deixou de conseguir administrar o rombo nas contas como até então vinha fazendo – isto é, efetuando novos empréstimos para quitar dívidas antigas. “Por isso que o default da empresa não foi uma surpresa. Era inevitável que a Evergrande não conseguisse mais gerir suas dívidas por causa desse pacote de mudanças estruturais”, explica Isabela.

“Parte da dívida deve ser honrada, principalmente às famílias, e outra, de detentores de produtos financeiros mais alavancados, deve passar por um default”, prevê ela.

De acordo com o professor de Direito Internacional da FGV, Evandro Carvalho, coordenador do Núcleo de Estudos Brasil-China, o caso da Evergrande – ou até mesmo do setor imobiliário como um todo – não vem isolado.

“Dentro do contexto de regular a influência de grandes empresas sobre a economia, o governo chinês também se voltou para a regulação de Big Techs, por exemplo”, disse ele à CNN.

“A ideia é justamente impedir o surgimento de oligopólios que pudessem concorrer com o poder político do governo, mas não só. Ao regular as grandes empresas, a China impede que concorrentes menores queiram seguir caminhos parecidos, método conhecido como governança pelo exemplo. A crise da Evergrande se tornou a ocasião perfeita para efetuar esse reajuste na economia”.

Em curso há alguns anos, explicam os especialistas, esse processo ganhou tração com a pandemia. Em cenários de competição internacional ultra-acirrada, como era o caso até 2019, promover uma mudança tão drástica na estrutura econômica seria um movimento impensável.

Isso porque, ao tirar o peso de um dos pilares mais fortes da economia, a China inevitavelmente teria um crescimento menor.

Mas, frente a uma crise mundial, se tornou possível “tirar o pé do acelerador” e voltar o foco para outras frentes. “O governo chinês viu uma janela de oportunidade para impulsionar essa reorganização da economia”, disse Isabela.

Com enfoque em inovação, a China agora expande o leque para investidores. Ao deixar de lado a infraestrutura física para privilegiar o setor tecnológico, de rápida e vistosa expansão, o que se vê, caso a transição seja feita com sucesso, é uma mudança no perfil de investimentos.

“É uma economia que se redireciona para investimentos qualitativos, não mais quantitativos”, avalia Isabela. “Dentro disso, há, claro, inúmeros desafios. Não é certeza que esse plano irá vingar.”

Impactos para o Brasil

Principal parceira comercial do Brasil, qualquer turbulência na economia chinesa inevitavelmente reverbera por aqui. É o caso do minério de ferro, commodity que, menos demandada pela indústria imobiliária, tem perdido força.

Ao mesmo tempo, há uma mudança no que a China privilegia em termos de importação. “Não é que o investimento vá diminuir, mas mudará de setor. Ao invés de construir prédios arranha-céus, por exemplo, o enfoque agora é na construção de parques e infraestrutura urbana, no modelo smart cities, o que significa que ela poderá importar inclusive produtos brasileiros de maior valor adicionado”, explica Isabela.

“Investidores brasileiros devem ficar atentos a essas transformações.”

No médio prazo, Evandro Carvalho avalia que, mais do que o impacto no minério de ferro, o Brasil deve se atentar às relações comerciais estabelecidas não só com a China, mas também com os Estados Unidos.

“Se o plano da China der certo, a disputa com os Estados Unidos, do ponto de vista tecnológico, ficará ainda mais acirrada, e o Brasil, aliado dos dois, precisará priorizar seus próprios interesses para não se deixar prejudicar por esse conflito”, disse.

O que vem pela frente

Na visão de Carvalho, a Evergrande deve seguir um caminho similar ao das Big Techs.

“Minha previsão é de que a empresa faça um reajuste total para se adequar e continuar no mercado. É provável que partes dela sejam vendidas para quitar as dívidas que ela não vai conseguir arcar”, avalia.

Para Isabela, um default parcial parece ser a solução mais imediata. “Imagino que alguns bancos e instituições financeiras não vejam o dinheiro de volta. Mas, como o governo chinês já vem sinalizando, é provável que famílias e trabalhadores tenham seus compromissos honrados”, disse ela.

“De certa forma, é até uma tentativa de passar uma lição para os investidores de alto risco, que, como o próprio nome sugere, correm riscos muito altos de perder dinheiro.”

*Sob supervisão de Ligia Tuon.

 

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