Com pandemia e inflação fraca, só baixar juros não deve ser suficiente

Consumo menor pode fazer inflação ficar abaixo de 2,5% neste ano e descumprir o limite mínimo estipulado pelo BC pela segunda vez na história

Vendedor com máscara de proteção aguarda clientes no Rio de Janeiro (14.mar.2020)
Vendedor com máscara de proteção aguarda clientes no Rio de Janeiro (14.mar.2020) Foto: REUTERS/Pilar Olivares

Juliana Elias

Do CNN Business, em São Paulo

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Divulgado nesta quinta-feira (9), o IPCA, indicador oficial de inflação do país, apontou um aumento de apenas 0,07% nos preços em março. O número veio ainda mais fraco que a inflação de fevereiro, que já foi baixa (0,25%), e é o menor já registrado para um mês de março desde o início do Plano Real, em 1994

Em 12 meses, o IPCA acumula alta de 3,3% e, até o fim do ano, alguns economistas já falam em projeções próximas de 2%, o que colocaria a inflação oficialmente abaixo do limite da meta estipulada pelo Banco Central (BC), que é de 4% – com uma margem de tolerância mínima de 2,5%. O regime de metas para inflação existe desde 1999 e já foi descumprido algumas vezes para cima, ou seja, a inflação do ano ficou mais alta do que o perseguido. A única vez em que a inflação ficou abaixo do limite mínimo da meta (2,95%, para um limite de 3%) foi em 2017.

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A inflação brasileira já vinha historicamente fraca nos últimos três anos, na casa de 3% a 4%, e o resultado de março confirma que o choque do coronavírus deve deixa-la ainda menor. Inflação muito baixa é um dos principais sintomas de fraqueza no consumo e no crescimento econômico de um país. 

Na opinião de economistas, o resultado abre espaço para que o Banco Central corte ainda mais a Selic, a taxa básica de juros do país. Ela já está atualmente no menor patamar de sua história, a 3,75% ao ano, e pode ainda ir a 3,5% ou 3,25%, na visão de alguns. A Selic é revista em reuniões da cúpula do BC que acontecem a cada 45 dias. 

Juros mais baixos são uma maneira de baratear o crédito, os investimentos das empresas e estimular o crescimento. O problema é que os juros já estão muito baixos e sem margem e, com estabelecimentos fechados, pessoas trancadas em casa e uma provável onda de falências e demissões pela frente, só cortar a taxa não deve ser o suficiente para segurar a crise.

“A Selic já caiu de 14,25% [em 2016] para 4,25% no ano passado, e o PIB continuou crescendo 1%”, diz o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sérgio Vale. “Em um cenário como o de hoje, de alta incerteza, mesmo que o juro vá de 3,75% para zero não será uma ajuda enorme; ajuda a não piorar mais, mas a produção parou, nada vai impedir que PIB caia de maneira significativa neste ano.” 

A projeção da MB Associados para o PIB de 2020, que era de alta de 1,6%, foi revisada para queda de 2,1% após a explosão da epidemia – “e pode ser ainda pior”, diz Vale. A expectativa para o IPCA no fechamento do ano foi cortada de 3,2% para 2,3%, o que o jogaria para fora da tolerância do BC de 2,5%.  

Mais injeção de recursos

Vale afirma que a situação atípica, em meio a um crescimento que já era fraco, demanda outros tipos de medidas que injetem crédito e recursos de maneira mais efetiva na economia. Isso, de acordo ele, já está sendo feito. O BC tem flexibilizado as garantias exigidas dos bancos (o chamado compulsório) e liberado bilhões de reais para o caixa deles, o que visa facilitar e baratear empréstimos. 

O BC também quer buscar maneiras de fazer empréstimos diretamente para as empresas, por meio da compra de títulos emitidos por elas (como debêntures), o que tira do caminho a necessidade de intermédio dos bancos. É o que os bancos centrais dos Estados Unidos e da Europa fizeram fartamente após a crise de 2009 e estão reeditando agora, mas que, no Brasil, não é permitido e precisa ainda passar pelo Congresso.

Inflação negativa pela frente

Para o economista Marcio Milan, analista de inflação da Tendências Consultoria, os meses mais duros para os preços ainda estão por vir. Isso significa que há diversos produtos e serviços que podem ainda ter corte nos preços, como refeições em bares e restaurantes e o preço dos combustíveis nos postos. “Março sentiu um impacto maior nos últimos 15 dias do mês, mas em abril já deve ter inflação negativa”, disse. “Os maiores efeitos [das medidas de isolamento na economia] virão mesmo no segundo trimestre.”

A consultoria, entretanto, não acredita que o BC deva seguir pelo caminho de mais um corte na taxa de juros, mesmo com um cenário de recessão quase certo, e, por ora, aguarda que a Selic continue nos mesmos 3,75% atuais.

“No fundo, tem um evento extraordinário que interrompeu as atividades, e o BC não tem como combater os impactos primários desse choque”, diz. “O ele faz é combater os efeitos secundários desses choques na economia. Se, passado o pico da pandemia, as condições econômicas não voltarem, daí faz sentido o BC voltar a reavaliar a sua política e os juros.”

A projeção da Tendências para o IPCA em 2020 foi cortada de 3,1% para 2,6% – no limite da tolerância de 2,5% do BC. Para o PIB, a consultoria calcula uma queda de 1,4% no ano. A boa notícia é que, a retração agora, deve ser compensada depois, e o PIB tem fôlego para crescer 3,3% em 2021. “Na prática, vai só adiar o crescimento deste ano para o próximo”, explica Milan.

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