Com Talibã no poder, empresas aéreas do Afeganistão têm futuro indefinido

As duas únicas companhias aéreas afegãs, Kam Air e Ariana Afghan Airlines negociam com Talibã para retomarem suas atividades

Airbus A340 da Kam Air
Airbus A340 da Kam Air Divulgação

Thiago Vinholescolaboração para o CNN Brasil Business

São Paulo

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A situação política e social do Afeganistão com o retorno do Talibã ao poder colocou em xeque o destino das duas únicas companhias aéreas do país, a Kam Air e a Ariana Afghan Airlines. Após a tomada da capital Cabul, em 15 de agosto, as empresas suspenderam as atividades comerciais, embora alguns de seus aviões continuem voando em operações de evacuação.

Maior empresa aérea afegã, a Kam Air suspendeu os voos comerciais e a venda de bilhetes em 19 agosto, um dia após a desativação do sistema de controle aéreo de aeronaves comerciais no Afeganistão. A Ariana Afghan Airlines também parou nesta mesma data. Pelas redes sociais, as duas empresas divulgaram comunicados semelhantes. Ambas garantem que a paralisação é temporária e os clientes com passagens compradas antes da tomada de Cabul poderão realizar suas viagens em breve, embora nenhuma delas tenha especificado um prazo.

O comunicado da Kam Air ainda chama atenção pelo reconhecimento ao novo regime em vigor no Afeganistão, que voltou ao status de emirado islâmico. “A Kam Air e funcionários da Comissão de Transportes e Aviação do Emirado Islâmico do Afeganistão estão trabalhando em conjunto para iniciar a retomada dos voos domésticos e internacionais”, diz a nota da companhia publicada no Facebook. Assim, a empresa admitiu que está negociando seu retorno com os líderes do Talibã.

Já a Ariana Afghan Airlines, em post no Instagram, afirmou que está em contato com a “autoridade de aviação afegã” e pede paciência aos passageiros com passagens compradas.

No entanto, mesmo com aval do Talibã, a volta às atividades dessas empresas deve ser dificultada principalmente pela falta de funcionários. Devido à escassez de trabalhadores especializados, as companhias aéreas afegãs empregam muitos estrangeiros, principalmente pilotos ucranianos, que estão fugindo ou já fugiram do Afeganistão.

Mais adiante, dependendo do nível de barreiras comerciais impostas ao Afeganistão sob a tutela do Talibã, as companhias do país poderão sofrer com a ausência de peças de reposição importadas para suas aeronaves, forçando o aterramento das frotas. Este, aliás, já é um ponto preocupante para a Kam Air e a Ariana Afghan Airlines, que são proibidas de voarem para as nações membros da União Europeia e para os Estados Unidos por questões de segurança operacional.

Por esses e outros motivos, as duas empresas afegãs muitas vezes são apontadas como as “piores companhias aéreas” ou “as mais perigosas” do mundo. A Kam Air, por exemplo, já foi acusada de traficar ópio para o Tajiquistão. Nesse mesmo balaio também aparecem companhias aéreas de países como Coreia do Norte, Irã, Nigéria e Venezuela, todas elas banidas de operarem na Europa e nos EUA por não oferecerem segurança adequada ou por estarem envolvidas em contravenções (ou ambos).

Kam Air, um case de resiliência da aviação

Modelo B737 da KamAir / Divulgação

A despeito das acusações de ter cometido crimes e pecar na manutenção de seus aviões, a história da Kam Air, a primeira companhia aérea privada do país, é um exemplo de resiliência em um dos ambientes mais hostis para a aviação comercial.

Fundada em 2003, a transportadora rapidamente se tornou o principal meio de deslocamento pelo interior do Afeganistão, responsável por 90% dos voos domésticos (em 2020), e gerou lucro suficiente a ponto de figurar entre os maiores contribuintes afegãos. A empresa é considerada uma peça-chave para a frágil economia do país asiático, onde são raros os pagadores de impostos.

O nome da companhia é inspirado no sobrenome de seu fundador, Zmarai Kamgar, um dos maiores empresários do Afeganistão e que segue no posto de CEO da empresa. O primeiro avião da Kam Air, um Boeing 727, foi cedido pelo general Abdul Rashid Dostum como pagamento pelo fornecimento de suprimentos à sua milícia privada, que lutava contra o Talibã. O voo inaugural da transportadora decolou em 8 de novembro de 2003, no trecho de Cabul para Herat e Mazari Sharif.

A companhia, porém, enfrentou um grave revés pouco tempo após sua estreia. Em 3 de fevereiro de 2005, um Boeing 737-200 da Kam Air caiu nos arredores das Montanhas Pamir e matou todos os 104 ocupantes a bordo. Este foi o maior desastre aéreo do Afeganistão. Na época, o então líder do Talibã, Mullah Dadullah, afirmou que seus guerrilheiros não haviam derrubado o avião e lamentou o ocorrido. As causas do acidente nunca foram totalmente esclarecidas.

Depois do acidente, a Kam Air foi incluída por um breve período na lista de empresas banidas na União Europeia. A punição atrapalhou os planos da companhia de voar para a Europa, algo que seria retomado somente em 2010, quando anunciou sua intenção de operar em Londres e Viena. Autoridades britânicas e austríacas, contudo, barraram a realização desses voos. A partir de 24 de novembro de 2010, todas as companhias aéreas afegãs foram proibidas de voar para a União Europeia por causa do fraco histórico de segurança da aviação civil do Afeganistão.

Apesar de todas essas restrições, a Kam Air se tornou o principal meio de acesso ao Afeganistão, com partidas de e para aeroportos da Arábia Saudita, Dubai, Índia, Kuwait, Paquistão, Tajiquistão, Turquia e Uzbequistão. Até a paralisação das operações comerciais, a companhia realizava em média 50 voos por dia, para destinos domésticos e internacionais, com uma frota de 12 aeronaves, sendo quatro jatos Airbus A340-400, quatro Boeing 737-300, dois 737-500 e dois 767-200ER.

Em março deste ano, a Kam Air protagonizou um feito histórico no Afeganistão ao realizar seu primeiro voo comandado por uma tripulação feminina. Com a volta do Talibã ao poder, voos comandados por mulheres dificilmente devem acontecer novamente, mesmo com as promessas de moderação do grupo extremista, notório pela segregação e violência contra o sexo feminino.

No ano passado, jatos A340 da Kam Air adaptados para o transporte de cargas na cabine de passageiros estiveram no Brasil em três ocasiões. Os aviões da empresa afegã foram usados no transporte de EPIs comprados da China e descarregados nos aeroportos de Cabo Frio (RJ), Campinas (SP) e Fortaleza (CE).

Ariana Afghan Airlines, a antiga estrela do Afeganistão

Modelo B737 da Ariana / Divulgação

Fundada em 1955, a Ariana Afghan Airlines é a empresa aérea mais antiga em atividade no Afeganistão e também uma das pioneiras no transporte aéreo na região da Ásia Central. Ao longo de seis décadas, a companhia foi do auge ao fundo do poço com as seguidas guerras, mudanças de governo e o radicalismo que assolaram o país e por pouco não fechou as portas.

Longe de seus bons tempos, a Ariana perdeu o posto de protagonista no mercado aéreo afegão na última década com o avanço da Kam Air. A frota da companhia é composta atualmente por apenas cinco aeronaves: dois jatos Airbus A310-300, dois Boeing 737-400 e um 737-500. Até a paralisação dos voos, a empresa atendia destinos domésticos e internacionais na Índia, Rússia e Turquia.

Diferentemente da Kam Air, uma empresa privada, a Ariana é propriedade do governo afegão. A transportadora aérea agora é uma estatal administrada pelo Talibã, situação que ela já viveu no passado e quase levou a sua extinção devido a sanções econômicas impostas pela ONU que limitaram seu acesso a componentes para manter suas aeronaves em condições de voo.

A empresa também já foi acusada de servir as causas de Osama Bin Laden, autor dos ataques de 11 de setembro nos EUA e antigo lider da rede terrorista Al Qaeda. Autoridades norte-americanas e afegãos exilados levantaram graves suspeita sobre a companhia, que teria transportado militantes islâmicos, armas, dinheiro e ópio para os Emirados Árabes Unidos e Paquistão.

Após a queda do governo Talibã em 2001, a empresa começou a se reerguer de forma tímida. No ano seguinte, com o fim das sanções, a companhia conseguiu retomar as rotas internacionais com jatos A300 cedidos pela Air Índia, que também colaborou com o treinamento de pilotos afegãos.

O frenesi, no entanto, durou pouco tempo: em março de 2006 a Ariana foi praticamente proibida de voar para o espaço aéreo da União Europeia. Em 2010, a empresa (assim como a Kam Air e todas as aeronaves registradas no Afeganistão) foi totalmente banida nos países membros da UE.

Futuro incerto

O transporte aéreo é essencial no Afeganistão, cuja geografia montanhosa dificulta as viagens por terra. É também a forma mais segura de viajar pelo interior do país, onde emboscadas em estradas são frequentes. Com a inatividade da Kam Air e da Ariana Afghan Airlines, o país asiático volta ainda mais ao passado e perde seu principal modal de transporte de longo alcance. Resta saber qual será a decisão do Talibã a respeito das companhias nacionais. De toda forma, o estrago no setor aéreo afegão já se mostra evidente.

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