Efeito de alta de juros nos EUA para o Brasil são limitados, dizem especialistas

Selic elevada e ativos descontados na bolsa reduzem danos, mas eleições podem piorar quadro

Estados Unidos iniciou ciclo de alta de juros em 2022
Estados Unidos iniciou ciclo de alta de juros em 2022 Dado Ruvic/Illustration/File Photo/Reuters

João Pedro Malardo CNN Brasil Business

em São Paulo

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O Brasil deve ser prejudicado pelo novo ciclo de alta de juros nos Estados Unidos, mas com efeitos limitados, segundo especialistas consultados pelo CNN Brasil Business. O ciclo começou em março deste ano, e ganhou um novo capítulo na quarta-feira (4).

O Federal Reserve, banco central da maior economia do mundo, anunciou um aumento de 0,5 ponto percentual na taxa de juros, que agora está no intervalo entre 0,75% e 1% ao ano. Foi a maior alta em mais de 22 anos, e ocorreu enquanto o país enfrenta o maior nível de inflação em mais de quatro décadas.

Devido ao tamanho da economia do país, qualquer mudança na política monetária norte-americana afeta as economias ao redor do mundo, e o Brasil não é exceção. Quando os juros sobem, a tendência é de saída de investimentos de países emergentes, com os investidores buscando a segurança e rentabilidade dos Estados Unidos.

Entretanto, especialistas apontam que o Brasil pode não ser tão prejudicado pelo movimento como outros mercados, e que ainda está em uma posição atrativa, apesar do cenário ser incerto devido às eleições neste ano.

Próximos passos do Fed

No mesmo dia em que o Fed aumentou os juros, o presidente da autarquia, Jerome Powell, afirmou que o banco central já vê como prováveis ao menos dois novos aumentos de 0,5 p.p. nas próximas reuniões.

Por outro lado, disse que os dirigentes do Fed descartam no momento uma alta de 0,75 p.p., esperada por parte do mercado devido ao grau da disseminação inflacionária, e também afastou riscos de uma recessão no país, vista como provável por alguns segmentos.

Para Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Órama, os movimentos de agora refletem um erro na postura do Fed, que considerou que a inflação surgida durante a pandemia seria transitória, e portanto não demandaria altas de juros.

“Não era só uma questão de inflação pela desestrutura na produção pela pandemia. O Fed, BCs e governos na pandemia começaram a emitir dinheiro, cresceu a base monetária em mais de 30%, e isso gera uma expansão da demanda, inflação”, diz.

A visão da autarquia de que a inflação seria apenas de oferta, porém, fez com que o Fed ficasse atrás no combate a ela, e agora passou a ser necessário acelerar o aperto monetário.

No cenário atual, Espírito Santo vê o banco central “refém” do mercado, que vem subindo as curvas de juros futuros do país, obrigando as elevações das taxas.

O Fed deveria ir com uma alta de 0,75 p.p. pelo andar da carruagem, mas disse que não vai fazer. Isso causa uma sensação no mercado de que o Fed não sabe efetivamente qual é o próximo passo, porque alguns dirigentes acreditam nessa alta maior

Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Órama

 

O economista espera que a próxima reunião tenha uma alta de 0,5 p.p. e que, com mais dados sobre a inflação, os dirigentes sinalizem uma nova elevação nessa magnitude ou deixem em aberto a possibilidade de aumentos maiores, contradizendo o que foi dito por Powell no dia 4, ou até menores, de 0,25 p.p.

“O mercado precisava de um aumento gradual, para dar tempo dele reagir, mas não tem como porque o Fed não consegue mais ir devagar, demorou para perceber o problema com que estava lidando”, afirma.

“Se o Fed acelerar para 0,75 p.p., o mercado pode entrar em pânico pela reversão de discurso, e isso seria muito ruim. Ele deve dar outra alta de 0,5 p.p., dar tempo do mercado repercutir”.

Por outro lado, Espírito Santo considera que o detalhamento do processo de redução do balanço da autarquia, hoje em US$ 9 trilhões, veio dentro do esperado pelo mercado, mas é importante ver como os investidores reagirão à redução de liquidez, ou seja, de dinheiro circulando na economia conforme o Fed deixa de comprar títulos.

“Se o mercado começar a colocar os bancos centrais contra a parede, é muito ruim, vai causar um pânico, quedas fortes nas bolsas, e isso não é bom. Em tese, as bolsas dos EUA estão muito além do que deveriam estar, estão relativamente caras, se sobe juros, tira atratividade, e se elas desmoronarem, gera crise global”.

André Perfeito, economista-chefe da Necton, também vê uma alta de 0,5 p.p. como mais provável na próxima reunião. “Se uma alta de 0,5 p.p. já causou essa reação nos mercados, uma de 0,75 p.p. poderia ser ainda mais problemática”, avalia.

Ele considera que os juros no país já terão uma alta relevante ao fim do ciclo atual, podendo chegar até a 6%, e o esforço do Fed agora é tentar manter os mercados calmos, apesar do nervosismo quanto aos possíveis efeitos desse processo.

Para o economista, o problema é que o mercado “tomou uma posição montada em inflação”, ou seja, acredita que o processo inflacionário é pior do que o Fed avalia, e que portanto errará no tamanho das altas de juros.

O quadro acaba gerando “muita pressão” sobre a autarquia, e Perfeito afirma que será necessário uma firmeza por parte dos seus dirigentes, evitando mudanças de opinião que enfraqueçam ainda mais a posição do banco central e reforcem os temores no mercado, jogando as bolsas para baixo e o dólar para cima.

Efeitos no Brasil

O economista da Necton afirma que é preciso tomar cuidado ao prever que as altas de juros devem piorar o desempenho da bolsa de valores no Brasil porque elas, em geral, já eram esperadas.

“As bolsas dos Estados Unidos podem cair mais, mas vejo exagero no Brasil porque a bolsa já está em um patamar muito baixo”, diz, citando o desempenho ruim em 2021.

A tendência, segundo ele, é de 2022 ter um “dólar esticado e uma bolsa sofrendo mais, mas mais por um pânico do mercado, que está comprando essa ideia de piora da inflação”.

O quadro de pessimismo global, apoiado em outros fatores além dos juros dos Estados Unidos, como os lockdowns na China e a guerra na Ucrânia, já fizeram o Ibovespa devolver quase todos os ganhos em reais de 2022, enquanto o real segue valorizado, mas novamente na casa dos R$ 5.

Perfeito afirma que as condições que geraram a grande atratividade do mercado brasileiro no primeiro trimestre – alta recorde nos preços de commodities e taxa de juros muito alta na comparação mundial – não devem se repetir na mesma intensidade no resto do ano, gerando uma atratividade menor.

“Mas o Brasil reúne algumas características que conspiram para uma bolsa mais forte. O Banco Central está à frente do resto do mundo, já fez ajustes e pode cortar os juros antes dos outros. Tem espaço, o Brasil pode melhorar”, avalia.

O principal empecilho para essa melhora, porém, são as eleições presidenciais. Perfeito espera um nível de estresse grande, com risco de instabilidade institucional e muitos ruídos, o que pode estressar o real em relação ao dólar.

Mesmo assim, “dado que a bolsa está descontada, o diferencial de juros, e que a gente produz commodities, o dólar não deve chegar a R$ 6. Temos elementos favoráveis, e outros emergentes estão tão ruins quanto. O Brasil não parece tão ruim em termos relativos, mas pode piorar”.

Outro fator positivo nesse sentido são os próprios juros elevados, que, por mais que desacelerem a economia, ajudam a atrair investimentos estrangeiros.

Alexandre Espírito Santo ressalta que a bolsa brasileira devolveu os ganhos de 2022 em real, mas, considerando a variação em dólar, ela continua com alta. Os possíveis efeitos do que ocorrerá nos Estados Unidos para o Brasil dependem, na visão dele, de três cenários.

O primeiro, mais positivo, envolveria o Fed conseguir retomar as rédeas da luta contra a inflação e contê-la sem aumentos excessivos de juros. O segundo traria uma estagflação nos Estados Unidos, combinando inflação alta e crescimento baixo. Já o terceiro, e pior, envolveria a necessidade de um freio “brusco demais” para combater a inflação, levando a uma recessão.

“Esses cenários indicam o que ocorrerá com a economia global em 2022 e 2023. A impressão atual é de que os próximos 60 dias serão cruciais para ter uma noção melhor, e não podemos esquecer da guerra e da pandemia, os efeitos que ainda podem ter”, diz.

A aposta do economista da Órama é em um cenário de baixo crescimento e queda lenta na inflação, mas sem descartar uma possível estagflação. Qualquer desaceleração na economia norte-americana, porém, afeta todo o mundo, em especial grandes exportadores como o Brasil, cuja combinação de cenário interno e externo pesa nas projeções de baixo crescimento em 2022.

Ele avalia que as eleições deverão ser “o grande problema” do país no ano, e que uma combinação do cenário externo com estresses eleitorais pode fazer o dólar subir mais. Atualmente, porém, a Órama projeta que a moeda norte-americana terminará 2022 entre R$ 5 e R$ 5,10.

Caso o pleito não traga grandes surpresas negativas, Espírito Santo diz que é possível que o Brasil retome parte da atratividade do início do ano, ajudado pelos problemas maiores em outros países emergentes, como China e Rússia.

“Se não tivermos recessão nos Estados Unidos e a eleição não trouxer surpresas desagradáveis, aí sim o país volta a ser atrativo. A bolsa ainda está muito barata, tem empresas muito sólidas, com resultados bons, pode voltar a subir”, diz.

Mesmo que o dólar sofra novas altas, ele avalia que o impacto sobre a inflação tende a ser menor que em 2021, a menos que a elevação ocorra muito rapidamente, o que ele considera pouco provável hoje.

“Ainda não vimos os efeitos da queda do dólar na inflação, e agora que a atividade começa a querer recuperar, não deve ter aumento de preços só pela alta do dólar, os empresários vão segurar o repasse. No curto prazo, isso não deve afetar a inflação”, afirma.

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