Entenda o que é estagflação, termo que ganhou mais força com a guerra na Ucrânia

Segundo especialistas, cenário de inflação alta e economia estagnada é patológico – e parece ser para onde o Brasil tem caminhado

Neologismo denota cenário em que a atividade econômica de um país perde fôlego em meio a uma forte disparada de preços
Neologismo denota cenário em que a atividade econômica de um país perde fôlego em meio a uma forte disparada de preços Foto: Pexels

Tamara Nassifdo CNN Brasil Business*

em São Paulo

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Economia estagnada com inflação alta. É daí que deriva o termo “estagflação”, conceito que tem ganhado cada vez mais força no noticiário desde a invasão russa à Ucrânia, em 24 de fevereiro, e que, segundo o Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), parece ser o caminho que o Brasil e outros países emergentes estão seguindo.

Em linhas gerais, o neologismo denota um cenário em que a atividade econômica de um país, medida pelo Produto Interno Bruto (PIB), perde fôlego em meio a uma forte disparada de preços.

São dois fenômenos que não costumam ocorrer simultaneamente, de acordo com Rodrigo De Losso, PhD em economia e professor titular da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP).

“Normalmente, vemos o PIB, ou seja, o conjunto de bens e serviços de um país, crescendo junto a uma alta nos preços. Isso aconteceu no ano passado, por exemplo, quando a economia brasileira cresceu 4,6% em meio a uma inflação de 10,06%”, explica.

“Por isso tem quem diga que um pouquinho de inflação não faz mal, costuma haver uma correlação positiva entre inflação e crescimento econômico”.

Dentro dessa lógica, a estagflação seria patológica, por elevar preços sem revertê-los para a economia. O que isso significa para o bolso do consumidor, segundo Fernando Ribeiro Leite, economista e professor do Insper, é um apertão a mais.

“No mais das vezes, o salário não varia na mesma velocidade e frequência da inflação. Se os preços subirem 1%, por exemplo, o salário não vai aumentar 1% também”, explica.

“Quase todos os brasileiros já estão percebendo essa disparidade e a queda no poder de compra.” Esse cenário fica claro nos números. No caso do Brasil, enquanto a renda média da população apresenta queda de cerca de 9%, de acordo com o IBGE, a inflação em 12 meses já chega a 11,30%, ou seja, muito acima do teto da meta para o ano, que é de 5%.

O perigo de uma economia estagnada, nas palavras de Leite, é mais desemprego: “Uma economia que não cresce gera poucas vagas de emprego e coloca sob suspeita aquelas que já estão ocupadas”.

“Se as vagas de emprego minguarem, é provável que as famílias fiquem mais cautelosas e incertas em relação ao futuro e gastem menos. Eis aí outra consequência da estagflação: um mal-estar geral entre os brasileiros.”

Brasil a caminho da estagflação

Segundo economistas consultados pelo CNN Brasil Business em setembro passado, a última vez que o país enfrentou um claro processo de estagflação foi entre 2015 e 2016.

No primeiro ano, o balanço geral foi de um PIB em queda de 3,5% com inflação acima de 10%. No seguinte, o PIB caiu 3,3% com o IPCA em 6,29%.

De lá para cá, a atividade econômica vinha se reerguendo timidamente – até a pandemia baquear as contas. Agora, a guerra na Ucrânia vem como a cereja do bolo.

“Primeiro, os lockdowns para conter a Covid-19 interferiram fortemente nas cadeias logísticas de produção. Agora, o conflito no leste europeu alavancou os preços de fertilizantes e a exportação de algumas commodities, como o trigo, que interferem no preço dos alimentos. A energia como um todo também tem sido afetada, com os embargos ao petróleo russo aumentando a demanda por outras fontes”, explica Leite.

Os choques sucessivos de custos têm levado as previsões a um crescimento perto de 0 – ou seja, estagnado. Na semana passada, o Fundo Monetário Internacional (FMI) estimou o PIB brasileiro relativo a esse ano a 0,8%, enquanto o Banco Central já é um pouco mais pessimista.

Segundo as últimas previsões do Boletim Focus, a estimativa é que o PIB marque 0,65%.

No entanto, ainda não é consenso que ao final do ano teremos uma economia “estagflacionada”. Com as eleições, De Losso, da FEA-USP, diz “ter dúvidas” em relação à projeção de crescimento para 2022.

“O ano eleitoral é um momento em que agentes públicos costumam gastar mais”, comenta ele.

“É possível que esse gasto adicional gere um crescimento maior da atividade econômica para esse ano, que, por sua vez, se reverta em um crescimento menor no ano que vem, porque nem sempre os gastos ligados à eleição são, digamos assim, produtivos.”

Já o Ministério da Economia projeta que a economia brasileira irá crescer 1,5% este ano, indo a 2,5% em 2023.

Tem quem discorde. Em entrevista à CNN Brasil Business no último mês de março, a professora Margarida Gutierrez, da UFRJ, disse que, caso a guerra na Ucrânia se estenda para o segundo semestre, o Brasil estará diante de uma “tempestade perfeita”.

Em um cenário de guerra no leste europeu misturado a uma eleição presidencial mais polarizada,  Gutierrez prevê um impacto negativo no câmbio, com desvalorização do real perante o dólar. Isso pode derrubar a atividade econômica ainda mais.

Com quadros internacionais e domésticos ainda incertos, é possível que as previsões para o PIB não se confirmem – para bem e para mal. A inflação, porém, não deve arredar tão cedo. Há de se aguardar cenas dos próximos capítulos, mas, ao que tudo indica, o final dessa novela não é um dos mais felizes.

*Sob supervisão de Ligia Tuon

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