Eleição no Chile: favoritos têm propostas opostas para cobre, maior produto do país

Visões divergentes não devem afetar cotação internacional do cobre, segundo especialistas

Eleição está polarizada entre a esquerda e a extrema-direita
Eleição está polarizada entre a esquerda e a extrema-direita Elias Almaguer / Unsplash

João Pedro Malardo CNN Brasil Business

em São Paulo

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As eleições presidenciais do Chile neste domingo (21) devem resultar em um segundo turno entre Gabriel Boric, de esquerda, e José Antonio Kast, de extrema-direita. Os candidatos divergem em uma série de pontos, e um deles é como lidar com o principal produto da economia chilena: o cobre.

A commodity corresponde atualmente a quase 50% de todas as exportações do país, e o Chile concentra aproximadamente um terço da produção mundial. No país, a maior mineradora é a estatal Codelco, além de uma série de empresas estrangeiras e companhias nacionais menores.

Mas nem sempre foi assim. A história política do Chile se mistura em alguns momentos com a história de produção do cobre, algo que pode acontecer novamente após os resultados do pleito de 2021, cujo segundo turno ocorrerá em 19 de dezembro.

Para especialistas, porém, o preço do cobre não deve ser impactado pelo resultado eleitoral. A commodity segue uma onda de alta na cotação internacional com o crescimento da demanda, em especial a China, que já impacta positivamente no PIB do Chile e deve ser a principal influencia para qualquer variação.

A relação entre o Chile e o cobre

A extração de cobre no Chile começou na década de 1930, e desde então a commodity sempre teve um grande peso na economia do país. Se no século XX os maiores compradores eram Estados Unidos e Europa, no século XXI a China passou a liderar as importações.

“O cobre é fundamental por ser um excelente condutor de energia elétrica, importante especialmente para a construção civil. O país que mais constrói cidades, infraestrutura, é a China. A demanda por cobre lá é gigantesca, maior que a de qualquer outro país”, afirma Wagner Iglecias, professor da EACH-USP.

Segundo ele, o país sempre teve disputas pela apropriação dos frutos da riqueza que a comercialização de cobre traz. A exploração se deu inicialmente de forma exclusiva por empresas estrangeiras, até que as pressões pela estatização da produção aumentaram.

Essa luta chegou ao ápice na década de 1970, quando Salvador Allende, do Partido Socialista, ganhou as eleições presidenciais. Com a vitória, ele criou a Corporación Nacional del Cobre de Chile, a Codelco, que concentrou a produção e nacionalizou as empresas estrangeiras.

Allende foi morto pouco tempo depois em um golpe de estado, e o Chile entraria em um período ditatorial com Augusto Pinochet.

“O Chile vira um laboratório do neoliberalismo, e o cobre foi parcialmente privatizado. O Chile hoje tem um relativo grau de desenvolvimento, e isso se deve à receita do cobre. Mas é um país muito desigual. O acesso à saúde, à educação, à previdência é complicado para a maioria da população, com baixo investimento do Estado”, diz Iglecias.

Minério de cobre
Economia chilena se beneficiou da exploração de cobre /REUTERS/James Akena

Amir Lebdioui, pesquisador da London School of Economics and Political Science, afirma que a receita com o cobre impulsionou os orçamentos governamentais, sendo essenciais para investimentos em educação e outras áreas sociais, junto com infraestrutura.

“Mas a dependência do país em relação às exportações de cobre trouxeram desafios, e é arriscada pensando na estabilidade macroeconômica do país”, diz.

“Quando fica dependente de uma commodity mineral, isso afeta outros setores, porque entra muito dinheiro e isso não estimula investimentos em outras áreas, em especial indústria, então, eles importam muitos industrializados”, afirma Iglecias.

Para Francisco Lira, mestre em economia pela UFPR, os governos chilenos identificaram essa dependência e buscaram nas últimas décadas uma diversificação da economia. Entretanto, ela ocorreu ainda pensando em commodities, com mais espaço para alimentos e outros minérios, em especial o lítio.

Dados do governo chileno mostram que, em 2021, o país já exportou pouco mais de US$ 3,5 bilhões em cobre. O segundo produto mais exportado, o salmão, totaliza US$ 500 milhões, seguido por madeira, celulose e minério de ferro. Os principais destinos do cobre chileno são a China, os Estados Unidos, o Japão e o Brasil.

Segundo Iglecias, essa riqueza ajudou a desenvolver a infraestrutura, um certo mercado, mas ela não foi bem distribuída. E isso é um debate inclusive nas eleições”. Lebdioui também cita questões ambientais ligadas à mineração, em especial o alto consumo de água e emissões de carbono, que também têm sido discutidas no país dentro do contexto de combate às mudanças climáticas.

Os impactos da eleição

Lira afirma que a eleição presidencial chilena ocorre em um momento no qual o país enfrenta grandes mudanças. A primeira é a realização de uma Assembleia Constituinte, que tem 2/3 dos membros mais à esquerda, preocupados com investimentos em saúde e educação. Além disso, pela primeira vez desde a redemocratização, os favoritos são de partidos que nunca protagonizaram outros embates eleitorais.

Assim, ele classifica o cenário eleitoral como “incomum”, mas uma consequência de uma série de protestos em 2019 contra a desigualdade e pobreza no país, com uma insatisfação com a classe política.

Nesse cenário, Boric e Kast surgem como alternativas mais extremas, mas os dois candidatos possuem visões divergentes em muitos temas. Um deles é a exploração de cobre.

“O Kast quer privatizar mais a exploração de cobre, abrir o capital da Codelco e iniciar parcialmente sua privatização. Já Boric fala em aumentar impostos para as empresas privadas de mineração e tem uma agenda verde, de introdução de novas tecnologias na mineração para reduzir o impacto ambiental”, diz Iglecias.

Para Lira, Kast tem focado em temas como imigração e pautas de costumes, com um discurso conservador, mas tem deixado assuntos econômicos mais de lado, o que dificulta saber exatamente quais são suas propostas.

Já Boric falou mais sobre o tema. Ele pretende realizar uma reforma previdenciária, mudando o sistema de capitalização atual, e uma tributária, cobrando mais impostos sobre os ricos, além de fornecer subsídios para a Codelco.

“Boric se preocupa bastante com previdência e temas sociais, que ressoam desde 2019. Kast, na questão econômica, fala é mais uma oposição ao governo Bachelet, que fez uma reforma tributária, aumento impostos, para financiar subsídios à educação superior pública. Ele não quer fazer muitas mudanças na economia”, afirma Lira.

José Antonio Kast, candidato a presidente do Chile, lidera as pesquisas / Ivan Alvarado/Reuters

Além dos favoritos, dois candidatos também possuem chances de chegar ao segundo turno. A senadora Yasna Provoste representa a centro-esquerda, do mesmo partido da ex-presidente Michelle Bachelet, enquanto Sebastián Sichel representa a centro-direita, do atual presidente Sebastian Piñera.

Em ambos os casos, porém, uma vitória dos dois representaria uma continuidade com as gestões dos mandatários anteriores dos seus partidos, mais moderadas e sem reformas consideradas mais ousadas.

Os candidatos também precisam lidar com demandas de trabalhadores de mineração, que reivindicam melhores salários e condições de trabalho. A facilidade do vencedor em implementar essa proposta depende, também, do resultado das eleições legislativas, que ocorrem no mesmo dia.

“Se um deles ganha, mas o Congresso está mais próximo do derrotado, fica difícil implementar a agenda”, diz Iglecias. Por outro lado, o professor afirma que a nova Constituição do país deve ser mais progressistas e exigir investimentos maiores em educação e saúde. Ela precisará ser aprovada em um referendo, o que torna o cenário incerto.

Candidato de esquerda à Presidência do Chile, Gabriel Boric deve seguir para o segundo turno / Reuters

“O cobre é um tema polêmico, o país depende dele, a economia não é tão diversificada. Com a polarização, os candidatos evitam esses temas polêmicos. É como falar de soja e pré-sal no Brasil”, afirma Iglecias.

Sobre os preços, Lira diz que o Chile detém uma parcela relevante da produção mundial, “mas não o suficiente para impor um poder de mercado muito grande. Ele não tem o que o Brasil teve em 1920, 1910, que detinha um monopólio na produção de café”.

Segundo ele, o país chegou a tentar formar uma versão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) para o cobre, mas a ideia fracassou.

“O mercado funciona de modo que nenhum país impõe sua vontade no preço pela produção, diferente do que vemos no petróleo”, diz.

Lebdioui afirma que as políticas dos candidatos “poderiam ter algum efeito [nos preços] caso impactassem a oferta mundial de cobre”, afetando de alguma forma a produção chilena. Entretanto, ele considera que, hoje, o principal fator que influencia o preço do cobre é a demanda global, em especial a chinesa, e os preços só devem cair se essa demanda recuar.

“Independentemente do resultado, podem ter mudanças que serão discutidas e até votadas, mas é um caminho longo, e é difícil o mercado precificar bem isso”, afirma Lira.

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