Europa avança rumo a consenso sobre excluir Rússia de sistema de pagamentos global

Sob a condição de anonimato, presidente de um banco central europeu disse que decisão sobre sanção econômica envolvendo Swift deve sair em dias

Da Reuters

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Neste sábado (26), uma série de países da União Europeia parece ter avançado rumo ao consenso sobre a exclusão da Rússia do sistema financeiro global Swift, como uma forma de sanção econômica.

Essa rede de mensagens de alta segurança é responsável por conectar milhares de instituições financeiras de todo o mundo. A exclusão tornaria muito mais difícil para as instituições financeiras na Rússia enviar dinheiro para dentro ou para fora do país.

Um presidente de um banco central da zona do Euro disse à Reuters neste sábado que a decisão de excluir a Rússia será tomada em questão de dias.

“O Swift é apenas uma questão de tempo, muito pouco tempo, dias”, disse o presidente, que pediu para não ser identificado.

“É suficiente? Não. É necessário? Absolutamente. As sanções só fazem sentido se houver custos para ambos os lados e isso será caro”, acrescentou.

A Alemanha, que depende do gás russo para abastecer a maior economia da Europa, é a resistência mais notável à medida.

Porém, neste sábado, a ministra das Relações Exteriores, Annalena Baerbock, e o ministro da Economia, Robert Habeck, emitiram uma declaração conjunta a favor da imposição de “restrições direcionadas e funcionais” envolvendo a rede Swift.

“Estamos trabalhando urgentemente em como limitar os danos colaterais da dissociação do Swift de forma que afete as pessoas certas. O que precisamos é de uma restrição direcionada e funcional do Swift”, disse.

Entre outros países que se posicionaram neste sábado, uma autoridade ligada à presidência da França disse que os membros da União Europeia estão “perto” de chegar a uma conclusão.

Falando sob a condição de anonimato, a fonte disse à Reuters que nenhum membro do bloco está bloqueando a ideia, sendo apenas uma questão de negociação.

O primeiro-ministro da Polônia também se manifestou neste sábado (26) dizendo que “todas as sanções deveriam estar na mesa, incluindo o fechamento dos gasodutos Nord Stream e a exclusão da rede Swift”.

Além disso, a Grécia demonstrou apoio e disse que concordará com todas as sanções da União Europeia contra a Rússia pela guerra na Ucrânia.

“A Grécia apoiará a linha da UE em sanções, inclusive no sistema Swift”, disseram autoridades à Reuters, que não quiseram ser identificadas.

Um dos países que até então era considerado resistente à ideia desta sanção, a Itália afirmou neste sábado que apoiará sanções, incluindo medidas que envolvam o sistema Swift.

O gabinete do primeiro-ministro italiano Mario Draghi informou que o premiê ligou para o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, neste sábado (26). Durante a conversa, Draghi reiterou que a Itália “apoiará totalmente a linha da União Europeia sobre sanções contra a Rússia, inclusive no Swift”.

Após especulações sobre suposta resistência à sanção, o ministro das Finanças do Chipre publicou no Twitter, neste sábado (26), que o país não se opôs às propostas para cortar a Rússia da rede de pagamentos global.

Em uma coletiva de imprensa, a primeira-ministra da Lituânia, Ingrida Simonyte, afirmou que os “parceiros ocidentais” estão se aproximando da decisão de impedir o acesso russo ao Swift.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, deu a entender que há consenso sobre as restrições Swift para a Rússia.

Em um comunicado na noite de sábado, o líder ucraniano disse que “sentimos que a Ucrânia tem o apoio de todo o mundo civilizado. O resultado prático? Rápido.”

Ele saudou isso como uma “vitória importante” e “significa bilhões e bilhões de perdas para a Rússia. É um preço para uma invasão sorrateira em nosso país.”

No sábado, o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, disse que os “preparativos técnicos” para a proibição da Rússia do sistema Swift começaram.

“A decisão oficial ainda não foi processada, mas os preparativos técnicos para tomar e implementar essa decisão começaram”, disse Kuleba em comunicado publicado em sua página oficial no Facebook.

O que é Swift?

A Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication foi fundada em 1973 para substituir o telex e agora é usada por mais de 11.000 instituições financeiras para enviar mensagens seguras e ordens de pagamento. Sem alternativa aceita globalmente, é um encanamento essencial para as finanças globais.

A remoção da Rússia do Swift tornaria muito mais difícil para as instituições financeiras enviar dinheiro para dentro ou para fora do país, causando um choque repentino para as empresas russas e seus clientes estrangeiros – especialmente compradores de exportações de petróleo e gás denominados em dólares americanos.

“O corte encerraria todas as transações internacionais, desencadearia a volatilidade da moeda e causaria saídas maciças de capital”, escreveu Maria Shagina, pesquisadora visitante do Instituto Finlandês de Assuntos Internacionais, em um artigo no ano passado para o Carnegie Moscow Center.

A exclusão da Rússia do Swift faria com que sua economia encolhesse 5%, estimou o ex-ministro das Finanças Alexei Kudrin em 2014, a última vez que a sanção foi considerada em resposta à anexação russa da Crimeia.

O Swift está sediado na Bélgica e é administrado por um conselho composto por 25 pessoas, incluindo Eddie Astanin, presidente do conselho de administração do Centro Central de Compensação de Contrapartes da Rússia.

O sistema, que se descreve como uma “utilidade neutra”, está incorporado sob a lei belga e deve cumprir os regulamentos da UE.

O secretário de Defesa do Reino Unido, Ben Wallace, disse na sexta-feira que remover a Rússia requer consenso.
“Estas são organizações internacionais, e se nem todos os países querem que eles sejam expulsos do sistema Swift, fica difícil”, disse ele à BBC.

O que acontece se a Rússia for removida?

Há precedente para remover um país do Swift. O sistema desligou os bancos iranianos em 2012 depois que eles foram sancionados pela União Europeia por causa do programa nuclear do país. O Irã perdeu quase metade de sua receita de exportação de petróleo e 30% do comércio exterior após a desconexão, segundo Shagina.

“Swift é uma cooperativa global neutra criada e operada para o benefício coletivo de sua comunidade”, disse a organização em comunicado na quinta-feira. “Qualquer decisão de impor sanções a países ou entidades individuais cabe exclusivamente aos órgãos governamentais competentes e aos legisladores aplicáveis”, acrescentou.

Os Estados Unidos e a Alemanha têm mais a perder se a Rússia for desconectada, porque seus bancos são os usuários Swift mais frequentes a se comunicar com os bancos russos, de acordo com Shagina.

Mas a dor pode ser generalizada. Altos legisladores russos disseram que os embarques de petróleo, gás e metais para a Europa seriam interrompidos.

“Se a Rússia for desconectada do Swift, não receberemos moeda [estrangeira], mas compradores, países europeus em primeiro lugar, não receberão nossos produtos – petróleo, gás, metais e outros componentes importantes”, Nikolai Zhuravlev, vice-presidente da câmara alta do parlamento da Rússia, disse na semana passada, de acordo com a mídia estatal TASS.

Contramedidas da Rússia

A Rússia tomou medidas nos últimos anos para atenuar o trauma caso seja removido do Swift.

Moscou estabeleceu seu próprio sistema de pagamento, o SPFS, depois de ser atingido por sanções ocidentais em 2014 após a anexação da Crimeia.

O SPFS agora tem cerca de 400 usuários, de acordo com o banco central da Rússia. Atualmente, 20% das transferências domésticas são feitas por meio do sistema, de acordo com Shagina, mas o tamanho das mensagens é limitado e as operações são limitadas pelo horário comercial.

O incipiente Sistema de Pagamento Interbancário Transfronteiriço da China, ou CIPS, pode fornecer outra alternativa ao Swift. Moscou também pode ser forçada a recorrer ao uso de criptomoedas. Mas estas não são alternativas atraentes.

“Não tenho certeza de que outros países, especialmente aqueles cuja participação no comércio com a Rússia é grande em equilíbrio, apoiarão a paralisação”, acrescentou Zhuravlev.

— Com contribuições de Nadine Schmidt em Berlim, Joseph Ataman e Camille Knight em Paris.

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