IGP-M acima de 30% pressiona reajustes que vão de conta de luz a condomínios

O indicador é mais conhecido por ser o índice que reajusta os aluguéis, mas é usado também como padrão em uma série de outros contratos

Prédios em São Paulo
Prédios em São Paulo Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Juliana Elias,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

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O Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), índice de inflação calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), deu um susto em muita gente do ano passado para cá: em 12 meses, ele já passou dos 35% e vem registrando algumas das maiores altas desde o início do Plano Real, em 1994. A disparada do dólar e de produtos básicos como minério de ferro e soja, durante a pandemia, explicam os níveis altos. 

O problema é que o IGP-M sempre foi tradicionalmente usado como o indexador de reajuste de uma série de contratos. Os aluguéis são os mais famosos deles – o que está levando inquilinos de todo o país a negociar e, em muitos casos, até refazer o contrato para usar outro indicador mais colado à realidade de renda do país

Mas não são os únicos. Mensalidades de cursos, prestadores de serviços, fornecedores da indústria e até as nossas tarifas de luz ou de telefonia são alguns outros que usam o IGP-M ou parte dele para balizar seus reajustes anuais de preço, o que significa que todos eles podem ficar (bem) mais caros neste ano, a não ser que haja espaço para negociação. 

Condomínio mais caro

“Boa parte dos nossos contratos é regida pelo IGP-M, o que até aqui sempre tinha sido factível, mas neste ano disparou”, conta o administrador de empresas e síndico profissional Alexandre Oliveira, responsável pela gestão de 20 condomínios em São Paulo e cidades vizinhas. 

Os contratos com empresas terceirizadas ligadas à mão de obra, como porteiros ou equipe de limpeza, subiram menos, na ordem dos 5%, já que os preços acompanham essencialmente os salários dos funcionários. 

Mas aqueles de serviços ligados à indústria e equipamentos, que são os que sempre usaram o IGP-M, tiveram correções na faixa dos 15% ou mais. É o caso da manutenção ou fornecimento de elevadores, geradores, câmeras de vigilância ou bombas d’água. “Alguns têm monopólio e a chance de negociação é pífia, tivemos que aceitar; onde há empresas menores, conseguimos negociar ou trocar o fornecedor”, disse Oliveira. 

O valor do condomínio, de acordo com Oliveira, só não deve subir na mesma proporção para os moradores graças a essas renegociações e, principalmente, aos salários dos funcionários, que são ainda a maior parte do gasto total dos edifícios e estão crescendo em um ritmo muito menor, conforme os reajustes negociados pelos sindicatos de cada categoria. 

Conta de luz e telefone

O que também já chegou ou deve começar a chegar mais caro em algum momento de 2021 é a fatura da conta de luz – não só por conta da cobrança extra da bandeira vermelha, adicionada nos últimos meses em razão da falta de chuvas, mas porque o reajuste anual da tarifa, calculado e decidido pela Aneel, a agência reguladora do setor, também pode ser salgado. 

Para uma boa parte das distribuidoras, ainda é o IGP-M que rege uma pedaço desses reajustes, que são dosados ainda a uma série de outros custos que têm aumentos próprios ao longo do ano, como a energia comprada das geradoras e os encargos pagos ao sistema. 

A Enel em São Paulo e Ceará, CPFL Paulista, Celpa e Coelba são algumas das 16 distribuidoras que ainda têm o IGP-M como base das revisões tarifárias anuais, de acordo a Aneel. É o caso dos contratos das concessões antigas e que ainda não chegaram a ser renovados.

Já nos contratos mais recentes, renovados em sua maioria de 2015 em diante, o índice que passou a ser usado no lugar do IGP-M é o IPCA, que atualmente está em 8%. A Enel do Rio de Janeiro, Light, Cemig, Celg e Cepisa são algumas que já têm contrato novo e trocaram o indexador antigo pelo IPCA. 

As operadoras de celular, internet ou TV são outras que também usam bastante o IGP-M para servir de base aos seus reajustes anuais de preços. Nesses casos, vale o que está no contrato de cada plano contratado pelos clientes. 

IGP-M é inflação da indústria

O que tem feito o IGP-M descolar tanto do resto é o fato de que, diferente dos outros índices de inflação, que olham os preços no varejo e ao consumidor, ele é quase todo formado por preços do atacado, da indústria e de exportadores. 

Minério de ferro, soja, milho ou chapas de ferro são alguns itens que só existem na cesta do IGP-M e que, em 2020 e 2021, foram justamente os que fizeram a variação dele subir tanto. A alta do minério de ferro, por exemplo, já está na faixa dos 100%. 

Como, porém, o IGP-M é um dos indicadores de inflação mais antigos do país – calculado pela FGV desde os anos de 1940 – e um dos primeiros a ser divulgado no mês, acabou se tornando o padrão ao longo do tempo.

“Para alguns segmentos da indústria que são muito dolarizados, como siderúrgicas ou a indústria automobilística, o IGP-M é realmente muito eficiente”, diz o economista André Braz, um dos coordenadores do índice na FGV. “Mas ele não é próprio para qualquer segmento, e pode acabar mais confundindo do que protegendo contra a inflação.”

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