O mundo passa por uma escassez de chips, e isso é uma má notícia para você

Alta demanda de smartphones e computadores prejudicou fornecimento para outros setores

Hanna Ziady, do CNN Business, em Londres

Ouvir notícia

Se você está procurando um carro novo, um smartphone ou até um eletrodoméstico, talvez tenha que esperar um pouco mais. Isso porque um número cada vez maior de empresas está tendo problemas para adquirir semicondutores, chips responsáveis pela comunicação interna de equipamentos eletrônicos. 

Há vários fatores que contribuem para esta crise setorial, antes concentrada apenas na indústria automobilística. O principal, obviamente, é a pandemia, que levou a economia global a uma recessão economia no ano passado, alterando as cadeias de suprimentos e mudando o padrão de consumo dos consumidores. 

 

Neste contexto, ao mesmo tempo em que as fabricantes diminuíram a produção dos componentes, as empresas de tecnologias -cujos produtos foram impulsionados pelo isolamento social- compraram todos os disponíveis no mercado. 

Além deste fato, a sanção dos Estados Unidos a empresas de tecnologias chinesas e as condições climáticas extremas também contribuíram para a baixa da ofertas desses produtos. 

Embora os chips mais procurados não sejam tão sofisticados ou caros, eles são indispensáveis em diversos produtos, dos aparelhos eletrônicos aos eletrodomésticos. 

Analistas preveem que essa dificuldade deve durar até o fim de 2021, principalmente pelo fato de que a produção dos semicondutores está concentrada na mão de poucos fornecedores, o que acentua essa situação já tão grave.

Segundo o banco Goldman Sachs, 169 indústrias americanas usam componentes elétricos em seus produtos, e isso pode significar um déficit médio de 20% de chips de computadores. De acordo com a instituição, alguns insumos usados na deles podem ficar em falta até, pelo menos, o início de 2022.

Impacto na indústria automobilística

Em média, um carro precisa de 50 a 150 componentes, que são usados em diversas partes, do sistema de condução ao controle de navegação. Quando a pandemia obrigou que as montadoras fechassem temporariamente suas fábricas, as fornecedoras concentraram suas produções em dispositivos que atendessem as empresas de smartphones, computadores e console de games, que apresentaram uma alta demanda.

Quando as automobilísticas voltaram a operar -mais rápido do que se imaginava- elas se viram no fim da fila de chips. Volkswagen, Ford, Fiat, entre outras, foram forçadas a adaptar a produção de seus veículos por falta destes pequenos equipamentos tão necessários.

Uma pesquisa da consultoria IHS Markit mostra que a escassez de componentes colocou a montagem de 1,3 milhão de automóveis e vans em risco globalmente, só no primeiro trimestre. Na última quarta-feira (28), a Ford afirmou que vai reduzir a produção de carros em 1,1 milhão de veículos neste ano, o que deve cortar um lucro de US$ 2,5 bilhões (cerca de R$ 13 bi).

Ainda segundo a consultoria, dois acontecimentos recentes tendem a agravar, ainda mais, a cenário. No mês passado, uma fábrica da Renesas Electronics, no Japão, sofreu incêndio que incapacitou cerca de 30% da demanda por chips.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, uma onda de frio atingiu o Texas, nos Estados Unidos, onde existem três empresas do mesmo segmento. Elas foram obrigadas a fechar suas unidades por uma semana, já que o inverno rigoroso interrompeu o fornecimento de água e energia. “Os fechamentos de uma semana serão sentidos por meses”, disse a IHS em uma nota. 

Somado a isso, as montadoras também não têm muitas opções para garantir suprimentos adicionais necessários para garantir as solicitações. A TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company), que é responsável por 80% dos semicondutores usados em carros, está concentrando esforços para aumentar sua capacidade produtiva. 

A empresa afirmou que está injetando US$ 100 bilhões nos próximos três anos para aumentar a capacidade e garantir que seus produtos -fundamentais em equipamentos como vidro elétrico, freios e faróis- acompanhem a demanda do mercado.

Smartphones e eletrodomésticos vão demorar mais

Mesmo as fabricantes de smartphones não estão protegidas disso. A Samsung disse, em teleconferência de resultados, que está trabalhando para reduzir a escassez de chips e de outras peças importantes, o que pode impactar a venda de smartphones. 

Na última quarta-feira (28), o diretor financeiro da Apple, Luca Maestri, disse que a receita da empresa deve cair entre US$ 3 bi e US$ 4 bi neste trimestre por causa das restrições de ofertas. O problema deve afetar, principalmente, a montagem de iPads e Macs.

Já na indústria de eletrodomésticos, a Siemens garantiu que máquinas de lavar e geladeiras estão com restrições de produção e com prazos de entrega prolongados. “Continuamos a colocar todos os nossos esforços na mitigação de possíveis riscos de escassez de componentes em potencial”, disse a empresa ao CNN Business.

E o preço vai subir

Outra consequência dessa escassez está na alta dos preços, que deve impactar a inflação anual. Analistas do Goldman estimam que tudo isso vai ser bem sensível ao bolso do consumidor. “Estimamos que a oferta reduzida poderá aumentar os preços entre 1% e 3% nas categorias afetadas”, escreveram.

Nos Estados Unidos, parte da população já sente os impactos financeiros da situação, pois os revendedores estão com o estoque bem abaixo do normal. O preço médio de um veículo subiu em 8,4% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados da consultoria JD Power.

Essa pressão de abastecimento levou o presidente Biden a ordenar uma análise dos produtos mais vulneráveis a interrupção do fornecimento para tentar um aumento na produção nacional.

A Intel, por sua vez, está negociando com empresas que projetam os chips para montadoras a possibilidade de fabricação dos itens em suas filiais. Se tudo der certo, ainda este ano a marca pode entrar no mercado, conforme adiantou o CEO Pat Gelsinger.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original)

 

Mais Recentes da CNN