Open Banking faz 1 ano: veja a trajetória do sistema financeiro aberto no Brasil

Para especialistas, primeiro ano foi necessário para a implementação das fases técnicas do sistema, enquanto 2022 será um período para sentir resultados na prática

Fabrício Juliãodo CNN Brasil Business

em São Paulo

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Open Banking completa, neste primeiro de fevereiro, um ano no Brasil. Também chamado de sistema financeiro aberto, o mecanismo de compartilhamento de dados passou por quatro fases ao longo de 2021, e traz novidades a partir deste ano.

O sistema, segundo o Banco Central, vem para estimular a competitividade entre instituições, o que tende a se traduzir serviços financeiros mais baratos e melhores.

A entidade prevê, por exemplo, uma oferta maior de produtos personalizados no histórico dos clientes e em informações de usuário, que passam a ser compartilhadas com as instituições financeiras aprovadas pelo BC.

Para Gustavo Bresler, gerente de estratégia da Quanto, o sentimento neste primeiro ano de Open Banking é que a adesão no Brasil ocorreu de maneira mais veloz e precisa do que em outros países, como e Reino Unido e outras nações europeias.

“Embora não estejamos no mesmo nível de tecnologia deles, conseguimos antecipar os problemas que esses países tiveram, seja de interface, arquitetura ou outras especificações. O sentimento que fica é de um Open Banking mais acelerado”, disse.

Bresler acredita que 2021 foi um ano importante para a implementação da ferramenta, e espera que em 2022 já seja possível vislumbrar os resultados a partir de seu uso.

“Esperamos que nesse novo ano haja uma adesão ainda maior de instituições financeiras no Open Banking, principalmente referente aos novos bancos, que estão entendendo as maneiras de incorporar os dados internamente e oferecer melhores produtos e serviços”.

O balanço deste primeiro ano do sistema financeiro aberto também foi visto com bons olhos por Thiago Saldanha, CTO da Sinqia. Ele afirmou enxergar o pontapé inicial parte crucial no desenvolvimento da ferramenta em território nacional.

“O mais difícil sempre é começar e dar os primeiros passos em um projeto de inovação. Este primeiro ano foi importante por conta desta robustez que o BC ganhou, pela maturação de todas as regras, de segurança e do próprio entendimento dos bancos”.

Como base de comparação, no Reino Unido, foram registrados 3 milhões de usuários ativos no sistema nos três primeiros anos de Open Banking, até janeiro de 2021., segundo dados da Open Banking UK.

Já no Brasil, somente na Quanto, plataforma de Open Banking no país, até dezembro de 2021, ou seja, antes de a ferramenta completar oficialmente um ano em território nacional, mais de 4 milhões de pessoas passaram pela “tubulação” de dados.

“Houve um grande esforço do mercado como um todo, então esse ano eu vejo que o compliance que foi necessário em 2021 vai trazer muitas coisas interessantes”, afirmou Gustavo Bresler.

Fases iniciais

A primeira fase do Open Banking no Brasil, que teve início exatamente há um ano, manteve o foco na disponibilização de informações padronizadas das instituições financeiras participantes ao público.

Ou seja, as instituições tiveram que apresentar seus canais de atendimento e as características de seus produtos e serviços bancários tradicionais.

Nesta fase, o Banco Central anunciou que não foi compartilhado nenhum dado de cliente.

Já na Fase 2, que teve início meses depois, em 13 de agosto, foi introduzido o compartilhamento de informações.

A partir deste estágio, os clientes podem começar a receber ofertas de acordo com seu perfil, histórico financeiro, custos mais acessíveis e soluções personalizadas para a situação em que se encontram.

Iniciador de pagamento

A partir da terceira fase, lançada em 29 de outubro de 2021, o Open Banking teve o primeiro encontro com o Pix. As duas principais novidades desta etapa são o Iniciador de Transação de Pagamento (ITP) e o encaminhamento de proposta de crédito.

Com o ITP, as empresas podem solicitar ao Banco Central para serem “iniciadores de pagamento”, facilitando as transferências dos usuários por meio de seus aplicativos.

Isso significa que empreendimentos que utilizam serviços delivery, por exemplo, vão poder oferecer aos clientes a opção de pagar o produto com Pix dentro do próprio aplicativo, sem fazer com que o usuário saia do app para entrar na interface do banco em que possui conta para utilizar a versão “copia e cola”.

Encaminhamento de crédito

Já o encaminhamento de crédito possibilita às instituições financeiras o envio de diversas ofertas de crédito, aumentando assim a gama de opções do cidadão.

Isso fará com que os usuários possuam um aumento considerável de oferta de crédito, afirma Rodrigoh Henriques, líder de inovações financeiras da Fenasbac (Federação Nacional das Associações de Servidores do Banco Central).

“Antes, a pessoa batia de porta em porta pedindo financiamento. Agora, isso vai se inverter. Com o histórico do consumidor em mãos, as instituições financeiras que vão procurar o indivíduo e oferecer as melhores ofertas disponíveis”, disse.

“O indivíduo receberá indicações de uma gama de empresas para compartilhar seu histórico e seus dados e, assim, receber as melhores ofertas possíveis sem precisar ter que procurar individualmente os bancos para conseguir um financiamento”, acrescentou.

Essa modalidade, no entanto, só começa a valer a partir de 30 de março de 2022.

Fase 4

A abertura da última fase das quatro etapas previstas ocorreu em 15 de dezembro de 2021. Ela marca a transição do Open Banking para o Open Finance.

Nesta última etapa, o sistema de compartilhamento de dados, informações e histórico sai do âmbito bancário e passa a valer para toda a configuração de finanças pessoais, como seguros, investimento, câmbio e outras vertentes.

O BC dividiu a fase 4 em duas etapas. A primeira, que teve início no fim de dezembro, tem por objetivo garantir que as instituições participantes iniciem um processo de certificação funcional das APIs (os sistemas) dos produtos que serão compartilhados.

Segundo o BC, quando as certificações dos serviços estiverem obtidas, cada produto específico da Fase 4 deverá obter um registro no ambiente do Diretório de Participantes das APIs.

O que esperar este ano

Para Thiago Saldanha, CTO da Sinqia, o primeiro ano foi importante para o entendimento dos bancos e do mercado sobre o conceito do Open Banking, mas 2022 será um período de aplicabilidade da ferramenta em todas as suas funcionalidades.

“É um ano de avanço, de executar melhor o que começamos a fazer no ano passado. Vamos continuar expandindo a parte transacional, e veremos as novidades que estão sendo aguardadas pelo mercado no dia a dia”, afirmou.

Em 2022, será possível a realização de opções de pagamento junto ao Open Banking que vão além do Pix. Em relação ao iniciador de pagamento (ITP), o Banco Central tem um cronogramadefinido:

Em 15 de fevereiro a possibilidade de transferência direta começa a valer para pagamentos com TED e transferência entre contas na mesma instituição.

Em 30 de junho passa a funcionar para pagamentos de boletos.

Em 30 de setembro, terá início para pagamentos com débito em conta.

Já a possibilidade de propostas de encaminhamento de crédito, que o mercado vem aguardando há algum tempo segundo especialistas, começa a valer em 30 de março.

Por fim, o Open Finance também deve começar a ser sentido este ano, a partir de 31 de maio.

A partir desta data, será possível obter os dados transacionais de todos os serviços que englobam o Open Finance, mediante prévia autorização do cliente.

Ou seja, no fim do primeiro semestre de 2022, a integração dos dados no Open Finance deve ser sentido na prática.

 

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