Reforma tributária e precatórios geram ruído sobre cena fiscal, diz Campos Neto

Ainda assim, o chefe da autoridade monetária reforça a mensagem de que, "no pano de fundo, há uma melhora na situação fiscal do país"

Presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, fala em entrevista coletiva
Presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, fala em entrevista coletiva 27/03/2020REUTERS/Ueslei Marcelino

Anna Russido CNN Brasil Business

Brasília

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O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, entende que a reforma tributária gera tem gerado ruídos no ambiente fiscal do Brasil. Além desse tema, ele também vê que a conta de precatórios no Orçamento e a criação do Auxílio Brasil, que substituirá o Bolsa Família, também trazem incertezas.

“Temos visto a reação do mercado nos últimos dias em relação a uma incerteza se a reforma tributária vai fazer com que a arrecadação tenha algum buraco ou como vai se desenrolar o tema dos precatórios. Tem um tema relacionado como vai ser o Bolsa Família, como vai ser financiado e em relação ao teto”, comentou nesta sexta-feira (3), em participação na abertura do prêmio Estadão Finanças Mais 2021.

Ainda assim, o chefe da autoridade monetária reforça a mensagem de que, “no pano de fundo, há uma melhora na situação fiscal do país”. Nesse sentido, ele destacou que a atual estimativa para a Dívida Bruta brasileira está próxima do esperado antes da pandemia.

“Tivemos um gasto bastante elevado que gerou uma piora na percepção da trajetória mas depois teve uma melhora na percepção da trajetória”, observou.

Por outro lado, ele reconheceu que houve uma associação de projetos propostos com a vontade do governo de viabilizar a expansão do Bolsa Família.

“Como o Bolsa Família sempre é ligado a um processo que pode ser visto como um processo eleitoral, você liga reformas estruturantes, como a do Imposto de Renda, a um processo eleitoral. Quando isso acontece, o nível de ruído aumenta”, explicou.

Inflação e crise hídrica

Campos Neto ainda admitiu que a crise hídrica tem impactado ainda mais a pressão inflacionária observada, podendo contaminar diversos setores da atividade econômica.

“A eletricidade tem o poder de disseminar esse aumento na cadeia. Muito importante acompanhar a parte hídrica nos próximos meses. Entendemos que ainda que é mais um problema de preço do que de racionamento”, destacou.

Na avaliação dele, há um gargalo inflacionário na economia global que tem piorado recentemente. Ele explicou que, apesar da mudança no movimento da inflação de bens para serviços, esperado pelo BC, a pandemia pode ter deixado cicatrizes mais permanentes nos hábitos de consumo.

“Se imaginarmos uma parte de tecnologia e que não vamos voltar a um esquema 100% presencial, com a entrada do 5G vai propiciar ainda mais negócios remotos, podemos estar falando de uma mudança estrutural. Então, talvez esses gargalos demorem um pouco a passar. Isso é um pouco o que temos dito do porque entendemos que essa disseminação da inflação tem sido mais prolongada”, explicou.

De acordo com o presidente do BC, as incertezas externas e internas, combinadas com a crise hídrica e a proximidade da corrida eleitoral, tornam mais difícil a projeção para a inflação.

“Temos todos os choques externos, os choques internos, a crise hídrica e mais o ruído eleitoral. De fato, sim, isso dificulta. Mas a nossa missão é atingir a meta, entregar a meta. Isso é muito importante. É o elemento mais importante para garantir a estabilidade de um crescimento sustentável de curto, médio e longo prazo”, reforçou.

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