Sem parada no pedágio e descontos: os planos para a Via Dutra após novo leilão

Rodovia foi uma das primeiras concessões do país, em 1996, e será relicitada nesta sexta-feira com novas exigências em infraestrutura e tecnologia

Juliana Eliasdo CNN Brasil Business

em São Paulo

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Acontece nesta sexta-feira (29) um dos leilões mais esperados da safra de concessões planejada pela atual gestão do Ministério da Infraestrutura: a relicitação da rodovia Presidente Dutra (BR 116) e seu trecho de 625,8 quilômetros que interligam as regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Sob gestão de um consórcio privado – a NovaDutra, da CCR – desde 1996, a Dutra foi uma das primeiras concessões rodoviárias feitas no país. Agora, com o primeiro contrato chegando ao fim, será novamente leiloada para novos donos, que serão os responsáveis pela operação da rodovia pelos próximos 30 anos.

As empresas que se habilitaram para a rodada foram a própria CCR e a concorrente Ecorodovias, em uma disputa esvaziada dos aguardados proponentes estrangeiros, mas que, ainda assim, promete ser acirrada.

“A Dutra é a joia da coroa; ela é a principal rodovia do país. Conecta as duas principais cidades (Rio e São Paulo), tem tráfego intenso e gera uma receita significativa”, diz o sócio gestor da consultoria de negócios Inter.B, Claudio Frischtak.

“Por outro lado, os investimentos necessários serão de fato muito expressivos, e isso ajuda a explicar por que ficaram apenas duas interessadas.”

R$ 15 bi em infraestrutura e tecnologia

Os investimentos exigidos pelo edital da empresa que levar o cobiçado trecho somam quase R$ 15 bilhões.

Uma parte importante deles embute melhorias em infraestrutura, como implantação de faixas duplas, triplas e quadruplas e de novas marginais, e a criação de um trecho inteiramente novo de ligação na subida da Serra das Araras, próximo a Volta Redonda, no Rio de Janeiro.

Também foi acoplado ao pacote da concessão o trecho de 272 quilômetros da rodovia paralela Rio-Santos (BR 101), entre a cidade do Rio e Ubatuba (SP), que deverá ser renovada e passará a ter a gestão privada.

O outro grande pedaço dos R$ 15 bilhões em investimentos deve ser um modernização: o projeto prevê a implantação pela futura concessionária de uma série de novas tecnologias.

Elas vão de wi-fi em todos os pontos para conexão com a central de atendimento a trechos com o chamado sistema “free flow”, ou “tráfego livre”, em inglês. A tecnologia já comum em países desenvolvidos dispensa o uso de praças de cobrança para o pagamento do pedágio e permite também que os valores pagos pelos motoristas sejam proporcionais aos trechos rodados.

Uma espécie de programa de fidelidade, que dará descontos nos pedágios para alguns usuários que trafeguem pela rodovia com frequência, é outra inovação que entrou no pacote.

A ideia é transformar a Dutra, que já é a principal veia de movimento rodoviário do país, em um piloto de testes e vitrine de novas tecnologias que possam, depois, ser expandidas pelo resto do país.

O CNN Brasil Business conversou com Frischtak, da Inter.B, e também consultou a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e o braço do Programa de Parcerias e Investimentos (PPI) do Ministério da Economia para entender como deverão funcionar os novos sistemas. Veja a seguir os principais deles:

“Free-flow”

O sistema dispensa o uso de cabines de cobrança do pedágio, o que melhora o trânsito, e faz o monitoramento do veículo por meio de câmeras que detectam sua presença em diferentes pontos da rodovia, de maneira bem parecida com o que fazem os radares de velocidade ou de detecção de placas no rodízio veicular, na cidade de São Paulo.

O reconhecimento poderá ser feito pela placa do veículo ou pelas tags de cobrança automática, como o Sem Parar, e a cobrança é enviada ao motorista ao fim do mês, para ser paga como um boleto ou diretamente pelo serviço de cobrança automática utilizado.

O mecanismo permitirá que a cobrança seja feita de maneira proporcional ao total rodado pelo motorista.

A tecnologia deverá ser implantada em um trecho específico, na região metropolitana de São Paulo (entre as cidades de Guarulhos e Arujá), até o fim do terceiro ano da concessão (em 2024 ou 2025, a depender do início do contrato).

“Inicialmente, a cobrança proporcional ao trajeto ocorrerá no trecho atendido pelo sistema de free flow, mas o contrato prevê a possibilidade de implantação de sistema nos demais trechos das rodovias”, informou o PPI, por e-mail.

Desconto para quem usa muito

Outra inovação prevista no novo contrato da Dutra é o chamado Desconto do Usuário Frequente, que é uma espécie de programa de fidelidade que dará descontos progressivos no valor do pedágio ao longo do mês para os motoristas que passam nos mesmos trechos com frequência.

O programa valerá apenas para automóveis e caminhonetes – motos e caminhões não estão inclusos –, e também apenas para os veículos que possuam algum dos serviços de tags de cobrança automática.

A cada vez que o veículo passar pela mesma praça de pedágio, de um mesmo sentido da rodovia, e dentro do mesmo mês, ele terá uma redução no valor cobrado. O desconto será cumulativo, diminuindo o valor cheio gradualmente até a 30ª viagem feita dentro do mesmo mês.

Da 31ª viagem em diante, até o final daquele mês, continuará sendo aplicada a última tarifa cobrada, no valor mínimo atingido.

O percentual dessa redução irá variar de 0,38% a 11,35%, de acordo com cada praça (veja a tabela abaixo), e será sempre aplicado a cada nova passagem pelo mesmo ponto, sobre o último valor pago no local (respeitando o limite de 30 viagens).

Tabela de descontos previstos por praça de pedágio, na nova concessão da Via Dutra
Tabela de descontos previstos por praça de pedágio, na nova concessão da Via Dutra / ANTT

Wi-fi para SOS

Também entre as exigências do edital está a necessidade de que a empresa vencedora implante uma rede de wi-fi com cobertura em toda a extensão da rodovia, destinado essencialmente a conectar o aparelho dos motoristas às centrais de atendimento da concessionária. Isso poderá ser feito por meio de aplicativo próprio ou rede interna, por exemplo.

O objetivo é ampliar os canais de contato com o usuário e garantir que não acha trecho sem cobertura de atendimento.

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