Astronautas da Artemis estão a caminho da Lua; veja o que acontece a seguir
Espaçonave Orion acionou seu motor e impulsionou quatro astronautas em direção à Lua

A missão Artemis II cruzou um limiar crucial e histórico na quinta-feira (2), quando a espaçonave Orion acionou seu motor e impulsionou quatro astronautas em direção à Lua, iniciando uma viagem de vários dias que os levará mais longe no espaço do que qualquer ser humano jamais viajou.
A queima, como são chamadas essas ignições dos motores, durou apenas 5 minutos e 50 segundos, enquanto a Orion estava a apenas 185 quilômetros (115 milhas) acima da Terra, segundo a Nasa.
Mas a ignição dos motores marcou a primeira vez que humanos — neste caso, Reid Wiseman, Victor Glover e Christina Koch, da Nasa, e o astronauta da Agência Espacial Canadense, Jeremy Hansen — se aventuraram para fora da órbita da Terra desde 1972, com a missão Apollo 17. E com Glover, Koch e Hansen a bordo, a jornada representa a primeira vez que um astronauta negro, uma astronauta mulher e um astronauta não americano, respectivamente, se aventuraram tão longe.
Veja aqui o rastreio da Nasa tempo real.
“A humanidade demonstrou mais uma vez do que é capaz, e são as suas esperanças para o futuro que nos impulsionam agora nesta jornada ao redor da Lua”, disse Hansen logo após a queima.
A Orion agora estará no que é chamado de "trajetória de retorno livre". Esse é o termo usado em voos espaciais para descrever uma viagem de assistência gravitacional: devido à dinâmica orbital e à gravidade da Lua, mesmo que a Orion nunca mais acione seu motor, a cápsula ainda orbitará a Lua e retornará à Terra.
A missão, que decolou às 18h35 (horário do leste dos EUA) desta quarta-feira (1º), marca o voo inaugural tripulado do programa Artemis da Nasa — um plano de longo prazo para levar humanos de volta à Lua e, eventualmente, estabelecer um assentamento lunar. Após a decolagem a bordo de um imponente foguete Space Launch System, os astronautas imediatamente começaram a testar a Orion, incluindo um teste manual de 70 minutos chamado de "demonstração de operações de proximidade".
Por pouco mais de uma semana, os membros da tripulação viverão, comerão, dormirão, se exercitarão e realizarão experimentos científicos dentro do espaço confinado da Orion, que tem o tamanho de uma van. Durante todo esse tempo, eles enfrentarão uma série de riscos inerentes a uma missão no espaço profundo.
Eis o que você deve observar enquanto a Artemis II orbita a Lua.
Imagens ao vivo da tripulação
Embora os astronautas mantenham grande parte de suas vidas privadas dentro da cápsula Orion, de 5 metros de diâmetro, a Nasa planeja oferecer uma breve transmissão de dentro da cápsula quase todos os dias da missão.
A Nasa ocasionalmente oferece ao público a oportunidade de sintonizar e ouvir as chamadas transmissões ao vivo, nas quais os astronautas conversam com jornalistas e outros interessados em solo. O primeiro desses eventos aconteceu na quinta-feira, quando repórteres incentivaram a tripulação a compartilhar detalhes e reflexões fascinantes.
Veja a transmissão ao vivo abaixo
Wiseman, o comandante da missão, detalhou um momento que deixou a tripulação sem palavras.
Na noite de quinta-feira, “o Centro de Controle da Missão em Houston reorientou nossa espaçonave enquanto o sol se punha atrás da Terra”, disse Wiseman, “e eu não sei o que todos nós esperávamos ver naquele momento — mas era possível ver o globo inteiro, de polo a polo.
“Era possível ver a África, a Europa e, se você olhasse bem de perto, podia ver a aurora boreal. Foi um momento espetacular, que nos deixou todos os quatro paralisados.”
Um teste de comunicação fundamental
Entre as atividades planejadas para o terceiro dia está um teste de equipamentos de comunicação através da Rede de Espaço Profundo (Deep Space Network), um sistema de comunicação que dá suporte a missões espaciais e fornece observações de radar e rádio.
De acordo com a Nasa , a DSN é "uma rede terrestre de grandes antenas de rastreamento espalhadas pelo mundo que, juntas, podem determinar a localização de Orion enquanto ela estiver no espaço profundo, fora do alcance do GPS" .
De acordo com a Nasa, a rede consiste em antenas posicionadas equidistantes umas das outras nos Estados Unidos, Espanha e Austrália.
Esses não são os satélites de TV comuns que oferecem os canais a cabo mais recentes. Cada antena da DSN tem cerca de 70 metros de largura — ocupando aproximadamente dois terços de um campo de futebol. Os satélites da DSN também possuem capacidade de rastreamento, fornecendo medições para a equipe em solo, permitindo que eles determinem a localização e a velocidade precisas de uma espaçonave.
No entanto, ainda haverá momentos durante o restante da missão em que os astronautas da Artemis II perderão todo o contato com a equipe de controladores da missão, enquanto tentam ir mais longe do que qualquer ser humano jamais foi.
Um desses apagões ocorrerá durante o período de aproximadamente 40 minutos em que a tripulação estiver viajando mais perto da superfície da Lua, ao se aventurar no lado oculto lunar, bloqueando a transmissão de dados para a Terra.
Entrando na 'esfera de influência'
Em sua jornada rumo à Lua, a espaçonave Orion usará seu motor para manter o curso, realizando o que a Nasa chama de manobras de "correção de trajetória". Tudo isso para manter a espaçonave em uma trajetória precisa em direção ao astro prateado no céu.
Em determinado momento do quinto dia deste voo, no final deste domingo, a espaçonave cruzará oficialmente o limiar da esfera de influência lunar — o ponto no espaço onde a força gravitacional da Lua é mais forte do que a da Terra.
Sobrevoo lunar recorde
O sexto dia desta missão trará a tão aguardada conquista final. Um sobrevoo lunar abrangente oferecerá à tripulação vistas sem precedentes do lado oculto da Lua — e permitirá que a equipe supere o recorde de maior distância já percorrida por humanos no espaço.
Se tudo correr conforme o planejado, a Artemis II superará o recorde estabelecido pela Apollo 13 em 1970 em 5.400 quilômetros (3.366 milhas), alcançando 405.000 quilômetros (252.021 milhas) da Terra.
Durante a maior aproximação à superfície lunar repleta de crateras, os astronautas capturarão imagens e descreverão o que observam para as equipes de controle da missão na Terra. A tripulação se baseará nas lições aprendidas em treinamentos em paisagens geológicas incríveis e ambientes semelhantes à Lua, como os da Islândia, para observar detalhes sobre as formas, texturas e cores das crateras de impacto e antigos fluxos de lava na Lua.
As características observadas pelos astronautas podem ajudar a definir os locais de pouso para futuras missões Artemis e revelar mais sobre o passado misterioso da Lua.
Bate-papo com a ISS
A tripulação da Artemis II deverá fazer uma chamada especial para outros humanos que estão atualmente no espaço: os sete astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional. Autoridades da Nasa confirmaram na quinta-feira que a chamada entre as naves está planejada para o sétimo dia da missão.
Antes do lançamento da missão Crew-12 para a ISS, a astronauta da Nasa Jessica Meir compartilhou em janeiro que parte do plano de voo Artemis II inclui uma chamada programada entre a espaçonave Orion e a estação espacial.
Ela está animada para conversar com Koch, com quem Meir realizou a primeira caminhada espacial totalmente feminina em 2019, assim como com seu colega astronauta Victor Glover e seus "tios astronautas", Reid Weisman e o astronauta da Agência Espacial Canadense Jeremy Hansen.
Meir disse que ela e os membros de sua tripulação a bordo da estação espacial estão ansiosos para acompanhar a jornada de seus amigos e colegas ao redor da Lua.
“Estamos todos muito animados por estarmos no espaço ao mesmo tempo”, disse Meir.
Uma reentrada em chamas
Após mais de uma semana quebrando recordes e cumprindo objetivos de teste, a equipe terá apenas um item crucial na lista de verificação para riscar: voltar para casa.
Não é uma tarefa fácil.
A fase final do voo, chamada de "reentrada", ocorre quando a cápsula Orion mergulha na densa camada interna da atmosfera terrestre enquanto ainda viaja a mais de 30 vezes a velocidade do som. O processo causa uma violenta compressão das moléculas de ar que pode aquecer a parte externa da espaçonave a mais de 2.760 graus Celsius (5.000 graus Fahrenheit).
É sempre uma das partes mais arriscadas de qualquer missão, mas para Artemis II os riscos são particularmente altos.
Há um problema conhecido com uma parte do escudo térmico da cápsula Orion , uma peça fixada na base circular da espaçonave, feita de um material ablativo — ou seja, projetada para carbonizar e sofrer erosão quando exposta ao calor. Autoridades da Nasa reconheceram que o escudo térmico deste veículo é imperfeito — um fato descoberto durante um voo de teste não tripulado em 2022, chamado Artemis I. A cápsula Orion retornou dessa missão com um escudo térmico repleto de buracos e rachaduras, o que não é o comportamento esperado de um escudo térmico. (Os escudos térmicos para as futuras cápsulas Orion foram fabricados de forma diferente.)
Mas os gestores da missão optaram por resolver o problema desta vez reconfigurando a trajetória de reentrada da Orion, escolhendo não realizar uma manobra de "salto", na qual a cápsula mergulha na atmosfera, sai dela e retorna à atmosfera. A abordagem de salto usada durante a Artemis I tinha como objetivo permitir que a Orion atingisse um local de amerissagem preciso.
Para criar um ambiente de aquecimento mais favorável para o escudo térmico subótimo, a espaçonave Orion da Artemis II realizará uma manobra de elevação mais sutil.
Coletar dados sobre o comportamento do escudo térmico desta vez é, na verdade, um objetivo fundamental da missão.
Jacopo Prisco contribuiu para esta reportagem.



