Fungo amazônico pode ser transformado em farinha de 'carne'; entenda estudo
Pesquisada Unicamp utiliza fermentação de resíduos para criar aroma natural de carne voltado ao mercado de proteínas vegetais

Uma pesquisa desenvolvida pela Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp (FEA/Unicamp), em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e o Good Food Institute (GFI) Brasil, resultou em uma tecnologia que transforma resíduos agroindustriais em uma farinha funcional com aroma natural de carne cozida.
O processo utiliza linhagens de fungos amazônicos para fermentar subprodutos como cascas de batata, aveia e açaí, oferecendo uma alternativa sustentável e livre de aditivos sintéticos para a indústria de proteínas vegetais.
O papel do calor na transformação do aroma
O desenvolvimentorevelou que a combinação inicial entre fungos e substratos gerava, primeiramente, um aroma intenso de maracujá.
A descoberta central ocorreu quando os pesquisadores aplicaram tratamento térmico ao material fermentado. Sob altas temperaturas, os compostos aromáticos produzidos pelos fungos sofrem reações químicas, como a reação de Maillard, convertendo o cheiro frutado em um odor característico de carne cozida.
De acordo com os inventores, o método sistematiza processos biotecnológicos já conhecidos na produção de alimentos como o missô e o queijo Roquefort, mas aplicados de forma inédita para a criação de ingredientes funcionais.
A farinha resultante pode ser incorporada diretamente aos alimentos, eliminando etapas custosas de extração e purificação de óleos essenciais.
Vantagens nutricionais
Além do ganho sensorial, a fermentação em estado sólido eleva o valor nutricional do produto final. O processo aumenta o teor de proteínas e aminoácidos através do crescimento do micélio fúngico.
A farinha também apresenta compostos bioativos, como o ergosterol, que é um precursor da vitamina D.
Pela legislação brasileira, os aromas obtidos via fermentação de substratos naturais são classificados como aromas naturais, o que enquadra a descoberta na tendência mundial de produtos clean label.
Esse segmento busca ingredientes de origem rastreável e processos com menor impacto químico, atendendo a uma demanda crescente de consumidores e do mercado de carnes vegetais.
Sustentabilidade e licenciamento industrial
O método de produção é considerado sustentável por não exigir grandes volumes de água ou solventes, além de reaproveitar materiais que seriam descartados ou destinados à compostagem.
A escala industrial do modelo de fermentação já é comprovada por produtos como o shoyu e o saquê, facilitando a transição da descoberta do laboratório para a indústria.
A Agência de Inovação Inova Unicamp já realizou o depósito do pedido de patente. O licenciamento para a exploração comercial está aberto para empresas públicas e privadas interessadas na aplicação da farinha em larga escala, incluindo setores de snacks, panificação e alimentação animal.


