Mesmo sem cérebro, águas-vivas dormem como humanos, mostra estudo

Resultados indicam que a função primordial do sono é permitir a manutenção celular e o reparo do material genético

Thomaz Coelho, da CNN Brasil, São Paulo
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Um estudo publicado na revista científica Nature Communications indica que o sono pode ter surgido muito antes do cérebro na história da evolução. A pesquisa mostra que até animais extremamente simples, como a água-viva, dormem aproximadamente 8 horas por dia — e que esse comportamento está ligado à reparação de danos no DNA.

Os cientistas analisaram a espécie Cassiopea andromeda, conhecida como água-viva invertida, que não possui cérebro nem sistema nervoso centralizado, apenas uma rede neural difusa. Mesmo assim, o animal apresenta períodos claros de atividade e repouso, com características semelhantes ao sono observado em animais mais complexos.

Segundo os pesquisadores, durante os períodos de atividade da água-viva ocorre acúmulo de danos no DNA das células nervosas, resultado do metabolismo e da exposição a fatores ambientais, como a radiação solar. Durante o sono, esses danos diminuem significativamente, indicando que o repouso permite processos de reparo celular.

Para testar essa relação, a equipe expôs os animais à radiação ultravioleta, que provoca danos ao DNA.

Após a exposição, as águas-vivas passaram a dormir por mais tempo, sugerindo que o aumento da necessidade de sono está diretamente ligado ao estresse celular. Quando privadas de dormir, os níveis de dano no DNA permaneceram elevados.

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O estudo também mostrou que o sono da água-viva é regulado principalmente pelo ciclo de luz e escuridão, e não por um relógio biológico interno complexo, como ocorre em mamíferos.

Ainda assim, o animal apresenta um mecanismo chamado “rebote do sono”: após períodos de privação, dorme mais para compensar.

Para os autores, os resultados indicam que a função primordial do sono é permitir a manutenção celular e o reparo do material genético. Isso sugere que o sono surgiu como uma necessidade biológica básica, antes mesmo da evolução de cérebros complexos ou comportamentos avançados.