Se a frase rimar, melhor desconfiar – por que confiamos em slogans com rima
Pode parecer um detalhe bobo, mas as frases rimadas são interpretadas mais facilmente por nossos cérebros, ganhando um caráter de fluidez

Aposto que maioria dos leitores saberá completar o slogan sobre segurança nas praias. “Água no umbigo...” É quase automático. Para mim é inevitável recitá-lo sempre que estou na praia. Assim que a primeira onda bate nos joelhos e eu me vejo dizendo para meus filhos, mesmo estando eles já grandes: “Não esqueçam. Água no umbigo, sinal de perigo.”
Nessas últimas férias de verão me peguei pensando na genialidade desse alerta. Ele é fácil de pôr em prática, já que ancora o nível da água num ponto muito claro do corpo. Mas além de ser prática, é factível: não seria razoável esperar que as pessoas ficassem com água nos joelhos, por exemplo, mas no umbigo é o suficiente para nos refrescarmos e nos divertirmos.
O maior segredo do sucesso, contudo, é a rima. Pode parecer um detalhe bobo, mas as frases rimadas são interpretadas mais facilmente por nossos cérebros, ganhando um caráter de fluidez. E essa fluência cognitiva tem pelo menos dois grandes impactos: tornam a frase mais memorável e também mais crível. Não é por acaso que durante muitos anos as empresas usaram as rimas para criar slogans que ficavam marcados na memória. “Se a marca é Cica, bons produtos indica” era um clássico. Não sei se ainda é usado, mas na minha cabeça o “Tomou Doril, a dor sumiu” nunca saiu de linha. E eu nunca esqueci a regra de trigonometria que foi inserida por um professor na Canção do exílio: “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, seno a cosseno b, seno b, cosseno a”.
Além de mais memoráveis, as rimas tornam as frases mais críveis. O cérebro humano consome tanta energia que usa diversas estratégias para reduzir esse gasto. Um deles é tentar concluir o mais rapidamente possível com o mínimo de informações disponíveis. O psicólogo ganhador do prêmio Nobel de Economia, Daniel Kahneman, batizou essa função cerebral de sistema 1, que coloca velocidade acima da precisão. Assim, interpretamos as informações mais claras, mais facilmente assimiláveis, com mais fluência, como mais verdadeiras. Foi tão fácil de entender que deve ser verdade. Um estudo no final dos anos 1990 mostrou provérbios pouco conhecidos para as pessoas classificarem o quanto eles descreviam corretamente aspectos da natureza humana. Metade do grupo lia uma versão rimada das frases enquanto outra metade lia o mesmo conteúdo, mas sem rima. Apesar do significado ser exatamente o mesmo nos dois grupos, as versões rimadas dos provérbios tinham uma credibilidade quase 20% maior.
Esse viés cognitivo foi batizado como Heurística de Keats, inspirado pela frase do poeta inglês “Beleza é verdade, verdade beleza, — isto é tudo o que sabeis na terra, e tudo o que precisais saber”. E como tudo, ele tem dois lados.
Como no caso do slogan dos bombeiros, ele pode ser muito útil em campanhas de alerta e segurança, tornando difícil hoje em dia entrar no mar sem lembrar que a água no umbigo é um sinal de perigo. Por outro lado, no entanto, ele nos torna propensos a acreditar prontamente naquilo que nos é apresentando de maneira a facilitar a compreensão – mesmo que não seja verdade. Em tempos em que a informação é apresentada de forma tão rápida e sua absorção é tão superficial, vale a pena sermos mais rigorosos com aquilo que ouvimos, portanto. Ou seja, se a ideia rimar, é bom repensar.



