Daniel Barros
Coluna
Daniel Barros

Médico psiquiatra e bacharel em Filosofia. Professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP

Resultados à venda

A manipulação do esporte é tão antiga quanto as competições. Está tão espalhada no tempo como no espaço, havendo escândalos em todos os lugares e culturas

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Quando você quiser de verdade parar de comer bobagens, dificulte sua vida: esconda os pacotes de bolacha, coloque os salgadinhos no alto do armário, atrás do saco de arroz, embrulhe os bombons sob camadas de plástico filme. Se, ao mesmo tempo, você ainda facilitar seu acesso a alimentos saudáveis, deixando as frutas à vista e já limpas, as saladas em potes à mão, prontas para o consumo, as chances de sucesso aumentam bastante. Todo comportamento que é dificultado reduz sua frequência, enquanto os que são facilitados tornam-se mais recorrentes.

Ao deixar o cartão de crédito salvo em sites, a possibilidade de comprar com um clique nos leva a gastar muito mais do que o faríamos se tivéssemos que preencher um cheque e mandá-lo pelo correio – imagine quanto não economizaríamos. Por outro lado, dificultar a vida dos fumantes, restringindo progressivamente os locais em que se pode fumar, foi uma das estratégias que derrubou o consumo de tabaco no Brasil.

Já conversamos, em coluna anterior, que, ao migrar para o celular, as empresas de aposta facilitaram demais o comportamento de apostar, aumentando a chance de ele se tornar repetitivo e, com o tempo, viciante. Mas as recorrentes notícias sobre escândalos envolvendo jogadores de futebol mostram que não só a vida do apostador ficou mais simples: a venda de resultados também foi muito facilitada pelas bets.

A manipulação do esporte é tão antiga quanto as competições. Na 138ª Grande Antinoeia, jogos que ocorriam durante o festival em Antinópolis, no antigo Egito, um contrato do ano 267, descoberto por arqueólogos, estipulava que, durante a competição de luta, o rapaz iria cair três vezes e desistir, recebendo três mil e oitocentas dracmas de prata, desde que os juízes não percebessem o arranjo. Os escândalos são tão espalhados no tempo como no espaço, em todos os lugares e culturas. Nem as mais ordeiras sociedades são poupadas, como mostram as manipulações de lutas de sumô, no Japão, que alcançaram fama mundial ao serem estatisticamente comprovadas pelos autores do livro Freakonomics, no início dos anos 2000.

Combinar um resultado, no entanto, não é tarefa tão fácil – envolve muitas pessoas, não é simples de disfarçar – já que a falta de empenho dos atletas pode ficar evidente – e sempre pode dar errado diante dos lances inesperados que acontecem nos esportes. Mas, a partir do momento em que se pode apostar em praticamente qualquer coisa, muitas das quais dependem exclusivamente de uma atitude discreta e individual, a manipulação torna-se praticamente impossível de ser detectada. Conseguir uma expulsão ou fazer um gol é uma coisa; já mandar a bola para a lateral ou fazer falta são lances normais, que não chamam atenção e que podem muito bem ser combinados entre jogadores e apostadores sem que ninguém note. Isso torna os incentivos sempre tentadores, pois, seja muito dinheiro para o jogador ou pouco dinheiro para os amigos, quanto menor o risco, mais favorável a relação risco-benefício.

Ainda se o público se revoltasse contra a prática e boicotasse jogos, pressionasse clubes e atletas, talvez houvesse alguma chance de as coisas mudarem. Mas a história mostra que isso não acontece. Quando o Freakonomics foi publicado no Japão, as reações foram mornas. Segundo o autor Stephen Dubner, o editor do livro no país notou poucos leitores se dando ao trabalho de criticar ou validar as evidências de corrupção do esporte; a maioria nem entrou no mérito. Seja a modalidade que for, quem não se importa com aquele esporte fica indiferente; os fãs, por sua vez, são tão envolvidos emocionalmente que tendem a minimizar o problema para salvar sua paixão. Alguma investigação é feita, poucos são punidos e a vida segue.

É uma distorção dos esportes, dos caracteres e, em última análise, de alguns aspectos da sociedade inteira. É uma praga que só vai crescer com a absurda invasão das bets no cotidiano. E infelizmente – ao menos para mim, que atendo pessoas com a vida devastada pelo vício em jogos – nem é o pior problema.

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