A ameaça do sarampo

O sarampo foi tratado, por muito tempo, como um dos maiores exemplos de sucesso da vacinação em massa e da informação no enfrentamento de uma doença. Graças às campanhas de imunização, o Brasil chegou a receber o certificado de eliminação da circulação do vírus. Mas a história recente mostra que, em saúde pública, quando se baixa a guarda, a ameaça é real e perigosa.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem reiterado que a vacina contra o sarampo é segura, eficaz e responsável por evitar milhões de mortes nas últimas décadas. Segue sendo a maior aliada no combate ao contágio. Ainda assim, a queda nas coberturas vacinais observada em vários países abriu espaço para o ressurgimento da doença, inclusive no Brasil.
Nos Estados Unidos, surtos recentes chamaram a atenção das autoridades sanitárias. Centenas de casos foram confirmados em diferentes estados, muitos deles concentrados em comunidades com baixa adesão à vacinação. Trata-se de um fenômeno preocupante, pois, quando se formam grupos concentrados de não vacinados, o vírus encontra terreno fértil para circular. Mais um efeito da desinformação e das criminosas campanhas antivacina.
A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) também emitiu alerta para os países das Américas. Diante do aumento de casos e da realização de grandes eventos internacionais, como a Copa do Mundo de 2026, a entidade recomendou o reforço das estratégias de imunização.
A orientação inclui a atualização da caderneta vacinal de crianças e adultos e, em situações específicas, a chamada “dose zero” para bebês entre 6 e 11 meses que viajarão para áreas de risco. Eventos com intensa mobilidade populacional ampliam a possibilidade de introdução e disseminação do vírus.
No Brasil, o Ministério da Saúde realizou, no início deste ano, uma ampla campanha de vacinação, com foco na recuperação das coberturas. A meta é atingir pelo menos 95% da população com duas doses da vacina tríplice viral, índice necessário para garantir proteção coletiva. Mas também há preocupação com as pessoas que visitam o país, já que foram registrados casos “importados” nos últimos anos. É um lembrete de que, em um mundo globalizado, fronteiras não impedem vírus.
O sarampo é uma infecção viral extremamente contagiosa. Uma pessoa doente pode transmitir o vírus para até 90% dos não vacinados que estejam nas proximidades. A transmissão ocorre pelo ar, por meio de gotículas respiratórias, e o vírus pode permanecer ativo em ambientes fechados por horas.
Alguns sintomas são comuns aos de outras infecções virais, como febre e manchas pelo corpo. Mas, em casos mais avançados, as complicações podem incluir pneumonia, encefalite e morte, com risco ainda maior em crianças pequenas e em pessoas imunossuprimidas.
Em minha trajetória como infectologista e atuando na gestão da saúde coletiva, sempre defendi que a vacinação é um pacto social. Não se trata apenas de uma escolha individual. Quando alguém opta por não se vacinar sem contraindicação médica, coloca em risco crianças pequenas demais para receber a vacina, pacientes em tratamento oncológico e todos aqueles que dependem da imunidade coletiva para se proteger.
A desinformação, amplificada pelas redes sociais, tem sido um dos grandes obstáculos. Questionar é legítimo, mas ignorar evidências científicas, não. As vacinas contra o sarampo são utilizadas há décadas, com perfil de segurança amplamente documentado. Reações adversas graves são raríssimas. Já as complicações da doença são bem conhecidas e potencialmente devastadoras.
Trabalhar com saúde — e, principalmente, com doenças infecciosas — nos ensina que doenças preveníveis só retornam quando falhamos na prevenção. O sarampo não aparece por acaso. Ele volta quando a cobertura vacinal cai, quando campanhas deixam de alcançar parte da população e quando o cansaço coletivo substitui a vigilância.
A resposta, portanto, não é o pânico. É investir em ações coordenadas, com campanhas de vacinação em massa, informações claras e acessíveis e o compromisso de cada cidadão com sua própria proteção e a do outro. O sarampo é evitável. Temos a ferramenta necessária. Cabe a nós utilizá-la.
