Fernando Rodrigues
Coluna
Fernando Rodrigues

Diretor da Rural, Rodrigues iniciou sua trajetória profissional no mercado financeiro, atuando com gestão de risco de commodities e migrou para a construção de um ecossistema voltado à inovação no campo. Fala sobre tecnologia e inovação.

A eficiência vai ficar barata

Em algum momento dos próximos anos, um produtor vai tomar uma decisão de manejo com ajuda de inteligência artificial e não vai perceber. Não vai abrir um aplicativo de IA, não vai escrever um comando, não vai saber que está usando. Vai só receber uma recomendação melhor do que a que receberia antes.

Isso não é previsão. É o que os números de hoje já estão desenhando.

O preço por unidade de inteligência caiu mais de dez vezes em menos de quatro anos. No mesmo período, o consumo de um usuário intensivo subiu noventa e quatro mil vezes.

Quase todo mundo lê essas duas linhas na ordem errada. Como se a tecnologia tivesse barateado e, por causa disso, as pessoas tivessem passado a usar mais.

A ordem é inversa, e ela importa.

O volume é que paga a queda. Uso em massa financia escala, escala derruba o custo da próxima unidade, custo menor puxa mais uso. Não é generosidade de fabricante, é curva de aprendizado. Nenhum insumo essencial da história ficou barato antes de ser consumido em massa.

Foi assim com a eletricidade. Em 1902, primeiro ano com média nacional nos Estados Unidos, o quilowatt-hora custava o equivalente a quase cinco dólares de hoje. Em 2000, custava dez centavos. Segundo o pesquisador Vaclav Smil, foi uma queda real de mais de 97%: o mesmo dinheiro passou a comprar mais de quarenta vezes mais energia. E a queda mais rápida veio no começo, cerca de 6% ao ano entre 1890 e 1920, justamente quando as cidades se ligaram à rede. Ninguém decretou energia barata. Ela ficou barata porque todo mundo ligou a tomada.

A eletricidade levou quase um século para ficar quarenta vezes mais barata. A inteligência ficou dez vezes mais barata em quatro anos.

Quem está pagando essa conta

Aqui entra a parte que ninguém coloca no slide.

Se o preço unitário caiu 10,7 vezes e o consumo subiu noventa e quatro mil, o gasto de um usuário intensivo subiu cerca de oito mil e oitocentas vezes. Esse dinheiro não evaporou. Ele comprou a infraestrutura que fez o preço unitário cair.

Os data centers estão desembolsando algo perto de cento e cinquenta e cinco bilhões de dólares por ano. É mais rápido do que o sistema rodoviário interestadual americano, do que o programa espacial, do que o Plano Marshall. Nenhum programa de infraestrutura da história gastou nessa velocidade.

Com uma diferença que pesa. Uma rodovia de 1960 ainda está lá. Uma GPU de 2025 vira sucata em 2030. A queda de preço só continua enquanto a reposição continuar.

E a base que banca isso é estreita. A projeção do Goldman Sachs é que, em 2030, apenas doze por cento dos trabalhadores do conhecimento usem inteligência artificial agêntica. Parece pouco, mas agente não dorme. Uma base pequena de pessoas, com agentes rodando por elas, consome volume de multidão.

Leia isso duas vezes. Poucos estão financiando uma queda de preço que o mercado inteiro vai colher depois.

O que muda no agro

É aqui que a conversa deixa de ser sobre tecnologia e passa a ser sobre margem.

Eficiência sempre foi o motor do agro brasileiro. Nós crescemos produzindo mais sem abrir área, e cada salto veio de uma tecnologia que deixou de ser cara o suficiente para virar padrão. Genética, plantio direto, agricultura de precisão, biológicos. Nenhuma delas entrou porque era nova. Entrou quando o resultado passou a justificar o custo.

O que está acontecendo com a inteligência artificial é exatamente isso, em velocidade comprimida.

Enquanto analisar dado era caro, analisar dado era projeto. Tinha comitê, tinha piloto, tinha consultoria. Quando o custo de analisar tende a zero, analisar deixa de ser projeto e vira condição de operação, do mesmo jeito que ninguém mais faz reunião para decidir se vai usar energia elétrica no barracão.

E tem um efeito colateral que vale mais do que a própria tecnologia.

Existe uma parte da margem da cadeia que não vem de serviço prestado, vem da dificuldade do produtor de comparar, medir e decidir sozinho. Spread de barter, comissão de revenda, corretagem de frete, crédito precificado por relacionamento em vez de dado. Nada disso se vende como ineficiência, mas tudo isso vive dessa assimetria.

Se o custo de analisar vai a zero, o custo de comparar vai junto.

Faço aqui uma ressalva, porque no agro essa conta não fecha igual à de um mercado digital. Revenda e cooperativa são o principal ponto de conexão com o produtor, e sustentam isso com logística, assistência e presença local. Mas o que segura essa relação tem nome, e quase nunca é dito: crédito.

A revenda financia a safra, recebe em grão e conhece o risco do cliente de perto. A confiança existe porque, antes, existe o crédito.

E é justamente o crédito que mais muda quando o dado fica barato. Quando o produtor passa a ser avaliado pelo que produz, e não por quem o conhece, o dinheiro pode vir de outro lugar. O canal que se protegia pela confiança já sente a desintermediação. Sobrevive quem transforma relacionamento em dado e deixa de vender só acesso ao dinheiro.

O que fazer com isso agora

A pergunta que eu ouvia há dois anos era se o produtor já usava inteligência artificial. Essa pergunta morreu.

A pergunta agora é se ele consegue rodar com eficiência. Se o token fica barato mas o consumo por tarefa multiplica, a vantagem não está no acesso à ferramenta, está em quem extrai mais resultado por unidade consumida.

Eu repito isso desde que comecei a escrever sobre o assunto e vou repetir de novo. Não adianta colocar tecnologia nova em processo antigo. Tecnologia serve para eliminar etapa, não para digitalizar o que já era ineficiente. Quem digitaliza o processo velho paga o preço novo e colhe o resultado velho.

E isso nunca foi um problema de software. É pessoas, processos e tecnologia, nessa ordem, porque é nessa ordem que a conta fecha.

Volto ao produtor do começo.

Ele não vai comprar inteligência artificial. Vai comprar uma recomendação melhor, um crédito precificado pelo que ele produz, um frete mais eficiente. A inteligência vai estar embutida ali dentro, invisível, custando quase nada.

A sucessão acelera, mas não decide. O que decide é acesso: conectividade no campo, dado organizado e um canal que transforme análise em decisão. Com acesso, quem decide por intuição herdada evolui para decidir por evidência, seja o pai ou o filho.

Custo zero não é promessa de tecnologia. É consequência de uso.