O obstáculo virou o caminho
A crise no Estreito de Ormuz está acelerando uma nova lógica de fertilização no agro

Em dezembro de 2025, a Mosaic anunciou a paralisação da produção de superfosfato simples em Araxá, Minas Gerais, e na Fospar, no Paraná. O motivo parecia técnico: o enxofre, matéria-prima essencial para produção de fertilizantes fosfatados, saiu de aproximadamente US$ 100 para US$ 550 por tonelada em menos de um ano.
Poucos meses depois, veio um movimento ainda mais simbólico. A empresa anunciou a hibernação permanente das minas de Araxá e Patrocínio, colocou ativos à venda e reconheceu perdas contábeis de até US$ 400 milhões. Estamos falando de uma estrutura capaz de produzir 1,1 milhão de toneladas de fertilizantes fosfatados por ano, cerca de 27% da capacidade da companhia no Brasil.
Isso não é apenas um problema operacional. É um sinal estrutural.
Durante décadas, o agro se acostumou a enxergar o enxofre como um subproduto abundante e barato da indústria de petróleo e gás. A lógica parecia estável: enquanto o mundo refinasse petróleo, haveria enxofre disponível para o fertilizante fosfatado.
A transição energética criou um novo competidor pelo enxofre. O processamento de minerais críticos para baterias, como níquel, cobre e algumas rotas de lítio, passou a consumir volumes crescentes de ácido sulfúrico. Em momentos de escassez, o setor de metais consegue pagar mais caro por esse insumo do que a agricultura consegue absorver.
O que era resíduo industrial virou uma matéria-prima estratégica.
Ao mesmo tempo, o conflito no Oriente Médio aumentou ainda mais a pressão. Quase metade do comércio marítimo global de enxofre passa pelo Estreito de Ormuz. Quando a instabilidade aumentou na região, o preço no Brasil disparou mais 40% em apenas um mês.
O problema deixou de ser apenas custo. Passou a ser disponibilidade.
Os números ajudam a entender a dimensão disso. A própria Mosaic estimou impacto de US$ 250 milhões no resultado operacional apenas no primeiro trimestre de 2026 por causa da alta do enxofre. Segundo a companhia, cada aumento de US$ 10 no preço do insumo adiciona aproximadamente US$ 10 milhões em custos trimestrais.
A escala do problema fica ainda mais clara em termos operacionais: para cada 10 toneladas de fertilizantes fosfatados, como fosfato diamônico (DAP) e fosfato monoamônico (MAP), produzidas, são necessárias aproximadamente quatro toneladas de enxofre. Com a disponibilidade do insumo se tornando imprevisível, a equação produtiva inteira muda de natureza.
E quando uma empresa que minera mais de 70% da rocha fosfática do Brasil reduz capacidade, toda a cadeia sente.
Em comunicado enviado a clientes em 11 de maio de 2026, o vice-presidente Comercial da Mosaic, Felipe Pecci, confirmou a redução de produção e admitiu que a disponibilidade futura de enxofre é "imprevisível". No mesmo documento, a empresa já sinalizava que reforçaria suas linhas de biológicos e fertirrigação durante o período de instabilidade — uma admissão, vinda de dentro da maior mineradora de fosfato do país, de que o modelo tradicional atingiu um limite operacional.
O produtor rural já começou a responder da única forma possível: reduzindo tecnologia por hectare.
Quem não conseguiu comprar fertilizante no momento certo provavelmente não vai deixar de plantar. Vai plantar com menos adubo. E menos adubo normalmente significa menor produtividade por área. O resultado é relativamente simples: mesma área plantada, menor produção e maior pressão sobre os preços dos alimentos.
Mas existe uma consequência menos óbvia nessa história.
A crise do enxofre está acelerando algo que provavelmente demoraria décadas para acontecer de forma natural: a adoção de biotecnologias capazes de extrair mais eficiência do solo já existente.
O mercado brasileiro de bioinsumos fechou 2025 com R$ 6,2 bilhões em faturamento, crescimento de 15% em relação ao ano anterior. A área tratada com produtos biológicos chegou a 158,6 milhões de hectares, equivalente a aproximadamente 26% da área cultivada do país.
Isso não acontece por ideologia. Acontece porque a conta econômica mudou.
Na prática, os solubilizadores biológicos ajudam a planta a acessar nutrientes que já existem no solo, mas permanecem indisponíveis. Em um cenário de fertilizantes mais caros, escassos e expostos à geopolítica global, aumentar a eficiência do sistema produtivo deixa de ser diferencial e começa a se transformar em necessidade operacional.
O Brasil já começa a ver, na prática, uma aceleração das tecnologias voltadas à saúde do solo e à redução da dependência de fertilizantes minerais tradicionais.
Empresas como Koppert Brasil, Biotrop, Bioma, Simbiose, Nitro Agro, Gênica e a americana Sound Agriculture ampliam rapidamente portfólios voltados à solubilização biológica de fósforo, inoculantes, bioativadores e microbiológicos focados em eficiência nutricional e saúde do solo.
O ponto mais importante talvez seja outro: essas tecnologias não dependem do enxofre importado, não passam pelo Estreito de Ormuz e não ficam expostas da mesma forma às tensões geopolíticas globais.
O Brasil talvez tenha uma das maiores vantagens competitivas do mundo nesse novo cenário. Temos biodiversidade, escala agrícola, ambiente tropical complexo e uma enorme capacidade de validação em campo. Lideramos globalmente a adoção de microrganismos promotores de crescimento vegetal.
No fim, o que parecia apenas uma crise de insumo pode acabar acelerando uma transformação estrutural muito maior.
O modelo mineral de fertilização não vai desaparecer. Mas ele está começando a mostrar seus limites econômicos, físicos e geopolíticos.
E quanto maior for a pressão sobre os fertilizantes tradicionais, maior tende a ser o impulsionamento das biotecnologias no agro. O que antes era visto como complemento começa rapidamente a se transformar em infraestrutura produtiva.

