Fernando Rodrigues
Coluna
Fernando Rodrigues

Diretor da Rural, Rodrigues iniciou sua trajetória profissional no mercado financeiro, atuando com gestão de risco de commodities e migrou para a construção de um ecossistema voltado à inovação no campo. Fala sobre tecnologia e inovação.

Quando sementes viram chips, o agro muda de jogo

A China está redesenhando sua posição no tabuleiro alimentar global. O Brasil ainda tem uma janela aberta — mas ela tem prazo. E o prazo é 2030.

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A China está redesenhando sua posição no tabuleiro alimentar global. O Brasil ainda tem uma janela aberta — mas ela tem prazo. E o prazo é 2030.

Um número ajuda a explicar a pressa chinesa: 65,8%.

Essa foi a taxa de autossuficiência alimentar da China em 2020, segundo estudo publicado pela Academia Chinesa de Ciências Sociais. O dado não significa que o país parou de produzir seus grãos básicos. Mas revela uma vulnerabilidade crescente em proteínas, óleos vegetais e insumos estratégicos da cadeia alimentar.

Para um país de 1,4 bilhão de pessoas que trata a segurança do seu "arroz na tigela" como questão de Estado, essa vulnerabilidade é politicamente inaceitável.

A resposta de Pequim não é apenas comprar mais. É produzir melhor, depender menos e controlar as tecnologias que definem a produção.

O 15º Plano Quinquenal da China, para o período de 2026 a 2030, estabelece como prioridade elevar a capacidade de produção de grãos para cerca de 725 milhões de toneladas até 2030, avanço de aproximadamente 50 milhões de toneladas.

O plano também reforça uma meta estratégica que passou quase despercebida nos mercados brasileiros: elevar a autossuficiência em germoplasma para 85%. A China quer depender cada vez menos de sementes e material genético externos.

O ministro da Agricultura chinês já classificou sementes como os "chips semicondutores da agricultura". A analogia não é retórica. É estratégica.

Assim como Pequim investe em semicondutores para reduzir dependência de fornecedores externos, está construindo uma indústria de biotecnologia agrícola para reduzir vulnerabilidade no campo alimentar.

Expansão de produção

Em 2025, a China expandiu de forma relevante o plantio de milho geneticamente modificado. Segundo a Reuters, a área cultivada chegou a 3,3 milhões de hectares, entre quatro e cinco vezes o patamar do ano anterior.

Ainda é pouco diante da área total plantada no país. Mas o sinal importa: a biotecnologia está saindo do laboratório e ganhando escala operacional.

Durante décadas, o comércio global de alimentos seguiu uma lógica clara: quem tinha terra, clima favorável e escala produzia. Quem não tinha, comprava.

O Brasil ganhou espaço nesse jogo porque reuniu esses três fatores como poucos países no mundo.

Uma nova variável está entrando no centro da equação: a tecnologia como multiplicador de produtividade.

Não qualquer tecnologia. A que transforma dados em decisão agronômica. Que edita o genoma de uma planta para tolerar seca ou resistir a pragas. Que melhora sementes, reduz perdas, amplia eficiência no uso de água e permite produzir em ambientes antes considerados marginais.

A tecnologia não elimina a geografia. Mas começa a reescrever seus limites.

E quando isso acontece, as rotas comerciais que pareciam óbvias passam a ser disputadas de outra forma.

O Brasil está do lado certo da janela, por enquanto.

A Conab projeta exportações de soja em torno de 112 milhões de toneladas na safra 2025/26. Com as tensões comerciais entre China e Estados Unidos reduzindo a previsibilidade do fornecimento americano, o Brasil ganhou participação de mercado sem precisar fazer muito além de existir como fornecedor confiável.

Alerta ao Brasil

Mas crescer por ausência do concorrente é diferente de crescer por superioridade estratégica.

Essa é a distinção mais importante que o setor precisa fazer agora.

Um relatório publicado esse mês, pela Systemiq, consultoria global de sistemas, em parceria com a Fundação Gordon and Betty Moore, coloca números nessa distinção. A modelagem da consultoria projeta que, até 2030, ganhos de eficiência e otimização poderão reduzir a demanda chinesa de soja em 25%, volume quase equivalente a todas as exportações americanas de soja para a China em 2024.

O relatório descreve o momento atual como o "Ano 0" da transformação do sistema alimentar chinês e identifica o mesmo padrão industrial que a China aplicou em energia solar e veículos elétricos: alinhamento entre política pública, capital estatal e tecnologia.

Shenggen Fan, Chair Professor da China Agricultural University e um dos maiores especialistas em política agrícola chinesa, resume assim: "Os que acompanharam as transições industriais anteriores da China sabem que não se deve subestimar o que pode vir a seguir."

A pergunta é simples: quando a China reduzir parte da sua vulnerabilidade, o que o Brasil estará vendendo que ela não consegue substituir?

Se a resposta for apenas volume de soja commodity, o risco aumenta.

Se a resposta incluir rastreabilidade verificada, menor risco socioambiental, proteína diferenciada, carbono mensurável e integração digital com o comprador, o Brasil estará em outro jogo.

O que muda para as tradings

As tradings têm uma posição privilegiada. Controlam fluxo físico, logística, contratos, financiamento e relacionamento com compradores globais. Esse papel continuará importante. O mundo ainda precisa de quem mova toneladas com eficiência.

Mas o valor da intermediação está sendo reprecificado, e as próprias tradings já perceberam isso.

O sinal mais concreto veio em outubro de 2025: ADM, Cargill, Louis Dreyfus e ofi fundaram e capitalizaram a Tract com uma rodada de US$ 21,6 milhões.

A plataforma de rastreabilidade e inteligência de cadeia de suprimentos foi criada especificamente para atender ao EUDR e à pressão crescente por dados verificáveis na origem.

As maiores tradings do mundo não estão esperando a regulação chegar. Estão construindo a infraestrutura que vai definir quem permanece relevante.

Não se trata de filantropia tecnológica. As tradings estão pagando para não ficar de fora do próximo modelo de comercialização.

A trading que vai ganhar a próxima década não será apenas a que movimenta mais volume. Será a que transformar dados em decisão para o produtor e confiança em valor para o comprador.

Em outras palavras: uma empresa de tecnologia operando ativos físicos, e não uma empresa física tentando comprar tecnologia na última hora.

O Brasil não deveria ler a estratégia chinesa como ameaça imediata. Deveria lê-la como aviso antecipado.

A China não precisa substituir o Brasil para mudar o poder de negociação do Brasil. Basta reduzir vulnerabilidades, diversificar origens e dominar parte maior da tecnologia que define produtividade.

Quando isso acontece, o comprador ganha mais alternativas, e quem vende apenas commodity perde poder de negociação.

Concentração de exportações

Hoje, 71% das exportações brasileiras de soja têm a China como destino. Uma contração de 25% nessa demanda até 2030 não seria apenas um problema de volume. Poderia pressionar preços, reduzir receita de exportação e gerar efeito cascata sobre renda agrícola, valuation de terras e emprego rural.

Esses números são da Systemiq. Não de um pessimista. De quem modelou o que a China fez com energia solar e veículos elétricos, e está aplicando o mesmo método para entender o que ela vai fazer com comida.

O produtor brasileiro que integrar rastreabilidade, genética, gestão de dados e acesso qualificado a mercado estará em um jogo diferente daquele que apenas aumentou hectares.

A rota comercial continuará importante. Mas a próxima disputa do agro não será apenas por quem entrega mais toneladas.

Será por quem entrega mais valor, mais confiança e mais inteligência em cada tonelada.