A guerra entre China e EUA criou um vencedor temporário: o Brasil
A disputa entre Pequim e Washington redesenha o comércio mundial de alimentos, permite o avanço brasileiro, mas expõe um dilema estratégico: até onde o Brasil pode depender da China para crescer?

A recente decisão da China de renovar — e poucas horas depois suspender parcialmente — licenças de exportação de frigoríficos dos Estados Unidos pode parecer apenas mais um episódio técnico da burocracia comercial chinesa. Mas, na prática, o movimento revela algo muito maior: o agronegócio se tornou uma das principais armas geopolíticas da nova disputa econômica global. E, nesse cenário, o Brasil emerge como um dos maiores beneficiários — e também um dos países mais expostos — da rivalidade entre as duas maiores potências do planeta.
O episódio ocorre em um momento especialmente delicado das relações entre Washington e Pequim. A guerra comercial iniciada ainda no primeiro governo Trump nunca foi completamente encerrada. Ela apenas mudou de forma. Se antes as tarifas sobre produtos industriais dominavam o debate, agora o conflito avança sobre áreas consideradas estratégicas para a segurança nacional dos países, como tecnologia, energia, semicondutores e, principalmente, alimentos.
A China entende que segurança alimentar é segurança política. Com uma população de mais de 1,4 bilhão de habitantes e limitações agrícolas internas, o país depende profundamente de importações de proteína animal, grãos e insumos agrícolas. Em 2025, os chineses importaram aproximadamente US$ 180 bilhões em produtos agropecuários.
Sozinha, a demanda chinesa por soja ultrapassou 110 milhões de toneladas. Já as importações de carne bovina passaram da marca de 3 milhões de toneladas. Isso transforma qualquer decisão de Pequim em um fator capaz de alterar preços globais imediatamente.
É exatamente nesse contexto que o Brasil ganhou relevância inédita na economia internacional. Enquanto os Estados Unidos enfrentavam restrições crescentes para acessar o mercado chinês, o agro brasileiro ocupou rapidamente esse espaço. Os números mostram a dimensão dessa mudança. Em 2009, o Brasil exportava cerca de US$ 20 bilhões para a China. Em 2025, esse número já supera US$ 105 bilhões. Hoje, aproximadamente 31% de todas as exportações brasileiras têm como destino o mercado chinês.
A transformação é ainda mais visível na carne bovina. As exportações americanas para a China, que chegaram perto de US$ 1,7 bilhão em 2022, caíram para cerca de US$ 500 milhões em 2025 — uma retração próxima de 70%. Ao mesmo tempo, o Brasil consolidou sua posição como principal fornecedor de proteína bovina para os chineses. As vendas brasileiras do setor praticamente dobraram nos últimos anos, saltando de cerca de US$ 4 bilhões em 2019 para aproximadamente US$ 8 bilhões em 2025. Hoje, metade de toda a carne bovina exportada pelo Brasil vai para a China.
Esse movimento transformou empresas brasileiras em gigantes globais. A JBS ultrapassou R$ 400 bilhões em receita anual e se consolidou como a maior processadora de carnes do mundo. A Marfrig alcançou faturamento próximo de R$ 140 bilhões. Já a Minerva expandiu agressivamente sua presença internacional apoiada justamente na demanda chinesa.
Mas talvez nenhum produto simbolize tanto essa mudança quanto a soja. Antes da guerra comercial, os americanos eram os principais fornecedores do grão para Pequim. Hoje, o Brasil domina mais de 70% desse mercado, enquanto a participação americana caiu para algo entre 20% e 25%.
Impacto no interior do Brasil
Na prática, os chineses transferiram dezenas de bilhões de dólares do cinturão agrícola americano para regiões produtoras brasileiras como Mato Grosso, Goiás, Paraná e Matopiba.
O impacto disso vai muito além do agronegócio. O interior do Brasil passou por uma transformação econômica profunda. Municípios ligados ao agro apresentam crescimento imobiliário acelerado, aumento da renda per capita e expansão do consumo. Cidades como Sorriso e Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, e Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, se tornaram símbolos de um novo ciclo econômico brasileiro impulsionado pela demanda asiática.
Forte dependência do Brasil
No entanto, existe um ponto delicado nessa relação. O mesmo movimento que fortalece o Brasil também amplia sua dependência da China. Atualmente, cerca de 70% da soja exportada pelo país vai para os chineses. No minério de ferro, a dependência supera 60%. Na carne bovina, gira em torno de 50%. Isso significa que qualquer desaceleração da economia chinesa, mudança regulatória ou tensão diplomática pode produzir impactos bilionários sobre o crescimento brasileiro.
E Pequim já demonstrou diversas vezes que utiliza comércio como instrumento político. A Austrália sofreu restrições severas após tensões diplomáticas. O Canadá enfrentou barreiras comerciais seletivas. O próprio Brasil já teve frigoríficos suspensos temporariamente por questões sanitárias.
A mensagem é clara: o acesso ao mercado chinês depende não apenas de competitividade econômica, mas também de alinhamento estratégico e estabilidade política.
É justamente por isso que o atual momento representa uma oportunidade histórica, mas também um teste de maturidade econômica para o Brasil. O país possui vantagens raras no cenário global: abundância de água, capacidade agrícola, energia relativamente limpa, disponibilidade territorial e neutralidade diplomática. Pouquíssimos países conseguem reunir simultaneamente essas características.
A grande questão é como essa riqueza será utilizada na próxima década. O Brasil pode aproveitar o ciclo favorável para investir em infraestrutura, tecnologia, industrialização e inovação, transformando o poder do agro em desenvolvimento econômico mais sofisticado. Ou pode aprofundar ainda mais sua dependência de commodities, ficando vulnerável às oscilações políticas e econômicas da disputa entre Washington e Pequim.



