Geyze Diniz
Coluna
Geyze Diniz

Cofundadora e presidente do Conselho do Pacto Contra a Fome, economista e conselheira da Península Participações

Francisco, o Papa que sorriu para o mundo

Francisco deixou muito mais do que palavras bonitas. Deixou um exemplo tranquilo e poderoso de como a fé pode ser vivida com leveza, profundidade e coragem

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Algumas pessoas marcam o mundo de forma tão serena e firme que parece que nunca vão embora de verdade. Papa Francisco foi uma dessas figuras. Por isso, não se trata apenas de falar da partida de Jorge Mario Bergoglio, mas de sua presença no tempo em que viveu entre nós como líder da Igreja.

Desde que surgiu na varanda do Vaticano com um sorriso simples e uma fala despretensiosa, havia ali algo diferente — uma presença que misturava fé, coragem e humanidade em doses pouco comuns. Aos poucos, Francisco deixou de ser apenas um chefe de Estado ou líder religioso para se tornar, para muitos, um símbolo de coerência entre discurso e prática.

Era inspirador ver alguém que não apenas falava sobre simplicidade, mas a vivia. Escolheu morar em uma residência comum, usava vestes modestas e dispensava protocolos que o afastassem das pessoas. Quando partiu, pediu um funeral discreto, com um caixão de madeira simples e direto à terra — fiel até o fim à vida que escolheu levar.

Francisco acreditava que construir pontes era mais importante do que erguer muros. Promoveu encontros entre religiões, conversou com diferentes culturas, acolheu pessoas de todas as origens e condições. Não impunha verdades — escutava, estendia a mão, criava espaços de aproximação.

Entre tantas frases que deixou, uma ecoa com força: “Deus nunca se cansa de perdoar.” Ele lembrava que a misericórdia vem antes do julgamento, e que a Igreja deveria ser como um “hospital de campanha”, onde todos são recebidos com cuidado, sem distinção.

Com humildade e determinação, Francisco fez grandes conquistas mesmo tendo um sistema com muitas limitações impostas pelo próprio Vaticano que ainda possui uma linha mais tradicional e resistente a mudanças. Mesmo assim, dentro desse cenário, foi disruptivo. Conseguiu avançar graças também ao legado de abertura deixado por seus predecessores, João Paulo II e Bento XVI, que, cada um à sua maneira, prepararam o terreno para uma nova visão da Igreja no século XXI.

Francisco enfrentou estruturas fechadas, revisitou tradições e propôs transformações importantes, sempre com firmeza e doçura. Queria uma Igreja mais próxima do povo, menos centrada em hierarquias, mais aberta à escuta, à participação das mulheres e ao papel ativo dos jovens e dos mais velhos.

Mas talvez um dos legados mais urgentes e poderosos tenha sido sua atuação no combate à fome e à desigualdade no mundo. Francisco nunca deixou de lembrar que os mais pobres devem estar no centro das nossas escolhas. Seu apelo constante à justiça social ecoava como um lembrete moral para governos, instituições e cidadãos: não há espiritualidade verdadeira que ignore o sofrimento humano.

Até com o planeta ele se preocupou. Em 2015, lançou um convite ao mundo: cuidar da Terra como cuidamos da nossa casa. Ensinava que os mais vulneráveis são sempre os mais afetados pela degradação ambiental e que ecologia também é responsabilidade moral. Francisco deixou muito mais do que palavras bonitas. Deixou um exemplo tranquilo e poderoso de como a fé pode ser vivida com leveza, profundidade e coragem. E deixa também um exemplo de bom humor.

Que o espírito de cuidado, justiça e escuta que ele nos mostrou siga inspirando o mundo. E que tenhamos a esperança de ver um novo Papa que continue, com sabedoria e ousadia, o trabalho iniciado por Francisco — abrindo caminhos de inclusão, dignidade e compaixão para todos.