José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Mercosul-UE: A hora de o Brasil ocupar o terreno europeu

Durante anos, o acordo Mercosul-União Europeia foi tratado como um exercício de paciência diplomática, mas esse tempo acabou

Mercosul e União Europeia
Mercosul e União Europeia  • Reprodução
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A decisão do Senado Federal do Brasil de criar um grupo de trabalho para acompanhar o Acordo Mercosul-União Europeia é mais do que um gesto procedimental. É um sinal político de compromisso com o futuro acrescido da responsabilidade de transformar um texto negociado em atividade real. O recado é simples: o tempo do papel acabou; começa o tempo da ação.

Há um erro recorrente do olhar brasileiro quando olha para a Europa. Ele vê uma vitrine não um território. Fala de importar vinhos, chocolates, queijos e marcas de luxo, como se o papel natural do Brasil fosse apenas consumir o que a Europa produz de melhor. Essa leitura é curta, defensiva e, no atual momento geopolítico, equivocada.

Há verdadeiras oportunidades em produzir na Europa. Em produzir luxo, valor agregado, design, alimentos premium e tecnologia cultural a partir de capital, criatividade e inteligência brasileira. Do Brasil para o mercado europeu… e para o mundo.

A União Europeia não é apenas um grande mercado. É um sistema regulatório sofisticado, uma plataforma de legitimidade global e um selo civilizacional. Produzir dentro desse espaço significa acessar cadeias de valor mundiais com outro grau de confiança, previsibilidade jurídica e reputação internacional. Para o empresariado brasileiro, isso muda tudo.

Diferentemente dos Estados Unidos e sobretudo da China, a Europa não exige do Brasil uma escolha identitária desconfortável. Não é uma relação assimétrica baseada em poder  duro, nem um jogo de dependência tecnológica. É uma relação culturalmente próxima, historicamente entrelaçada e, sobretudo, compatível com o momento civilizatório que atravessamos.

Em um mundo cansado de excessos, velocidade cega e conflitos permanentes, a Europa oferece algo escasso: densidade histórica, sofisticação institucional e valorização do intangível.

É aqui que entra Portugal. Como uma porta estratégica. Portugal conhece o funcionamento interno do mercado europeu, compreende as exigências regulatórias e partilha com o Brasil uma gramática cultural que reduz ruídos, acelera decisões e cria confiança. Para empresas brasileiras, instalar-se, produzir ou co-produzir a partir de Portugal nem é desvio, vira atalho inteligente.

O novo tabuleiro geopolítico abre uma janela rara para o Mercosul, e especialmente para o Brasil. Uma janela que será ocupada por quem agir primeiro. Por quem entende que o acordo não é o fim do caminho, mas o começo de uma presença económica brasileira mais madura, mais sofisticada e menos dependente de exportar apenas volume.

As empresas que estiverem prontas para a ação quando o acordo começar a produzir efeitos — dois meses depois de ratificado por cada governo — levam vantagem. Quem já tiver pés no chão europeu, quem já tiver aprendido a linguagem do mercado, quem já tiver transformado proximidade cultural em vantagem competitiva, sai ganhado. Tudo está a começar. E, pela primeira vez em muito tempo, o caminho óbvio também é o mais inteligente.

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