O Brasil está no preço da TAP
Relação entre Brasília e Portugal pode ser ponto de partida para expansão da empresa no Atlântico Sul em novo acordo entre Lufthansa e o governo português

O governo português escolheu a Lufthansa como futura acionista da TAP, companhia aérea de bandeira de Portugal. A operação prevê a aquisição de até 49,9% do capital e ainda depende da conclusão dos acordos e das aprovações regulatórias. Para o Brasil, o anúncio merece atenção: parte do que torna a companhia portuguesa tão disputada está deste lado do Atlântico.
O interesse alemão ajuda a medir o valor econômico de uma relação que Lisboa e Brasília tantas vezes descrevem apenas com palavras de afeto. Décadas de ligações aéreas transformaram a proximidade histórica em passageiros, receitas e acesso a mercados. A língua ajuda a escolher uma porta de entrada na Europa; os voos tornam essa escolha possível. O Brasil está, por isso, no preço da TAP.
Há uma oportunidade séria. A Lufthansa já declarou querer fortalecer a TAP no Atlântico Sul, com Lisboa como centro estratégico de ligações. Integrar um grupo maior pode trazer capacidade de investimento e mais passageiros europeus para as rotas brasileiras. Portugal pode ganhar relevância dentro da Europa precisamente por conhecer melhor o Brasil. Seria um erro receber essa possibilidade com um nacionalismo que confunde a origem do capital com a qualidade do serviço.
O problema começa quando a escala altera quem decide as prioridades. Segundo o modelo anunciado pelo governo, o Estado português nomeará cinco dos nove administradores, enquanto a Lufthansa indicará três dos quatro executivos. A maioria pública terá, portanto, de exercer os seus poderes com competência. Escolher onde colocar um avião, reforçar uma frequência ou adiar uma rota interfere na relação entre países tão concretamente como uma decisão diplomática.
Para uma família repartida entre Portugal e Brasil, essa discussão chega sob a forma do preço da passagem e das horas de viagem. Para um festival literário, pode determinar se há dinheiro para trazer um escritor; para uma universidade, se uma parceria sai do papel. Conheço bem essa distância entre celebrar a língua comum e conseguir pagar a deslocação de quem a trabalha. A circulação cultural depende de decisões comerciais que raramente entram nos discursos sobre a lusofonia.
Também o Brasil precisa olhar para o negócio com ambição própria. Uma rede europeia mais ampla pode levar visitantes e investimento a cidades brasileiras que procuram maior presença internacional. Mas seria ingênuo concluir que a integração garante passagens mais baratas. Essa possibilidade depende da oferta e da concorrência. Interessa acompanhar o que acontece às ligações regionais e às alternativas disponíveis ao passageiro, muito além do eixo Rio–São Paulo.
O Governo português anuncia a preservação da marca e da sede, bem como o reforço de Lisboa. Esses compromissos precisam se traduzir em metas verificáveis e consequências pelo descumprimento. Preservar o nome TAP na fuselagem diz pouco sobre onde crescerá a operação. Portugal deve negociar para que a sua relação com o Brasil tenha peso nas decisões de investimento durante os anos bons e também quando for necessário cortar custos.
Vejo na escolha da Lufthansa uma oportunidade para ampliar a relação luso-brasileira, desde que os dois países saibam o que querem dela. A Alemanha reconhece valor comercial numa proximidade que portugueses e brasileiros tratam frequentemente como herança garantida. Talvez esta operação nos obrigue a levá-la mais a sério. Uma língua comum aproxima; o preço e a frequência dos voos decidem quantas vezes nos encontramos.



