José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

O silêncio do meio do mundo

China e Estados Unidos não conversam para se entender, mas para decidir como o resto do mundo vai respirar

Compartilhar matéria

O telefonema entre Trump e Xi soou como um suspiro de trégua. Pequim e Washington voltam a se falar, e o planeta inteiro prende a respiração. Mas esse alívio que o noticiário celebra é, para o Brasil e também para Portugal, um sinal de alerta: quando os gigantes se entendem, os países do meio — aqueles que vivem entre continentes, blocos e histórias — precisam reaprender a existir por conta própria.

A conversa entre os dois líderes não foi cortesia diplomática. Foi cálculo. A promessa de aliviar tarifas e controlar exportações esconde um acordo tático: a China reforça o seu domínio sobre as terras raras — minerais que movem a revolução tecnológica — enquanto os Estados Unidos tentam conter a dependência de insumos chineses, gesto simbolizado pela recente decisão de suspender restrições ao acesso chinês a tecnologias avançadas. O mundo volta a ter centro — e, portanto, periferias.

O que menos se percebe é que, quando Washington e Pequim ensaiam conciliação, a União Europeia se move. Bruxelas recupera o discurso da sustentabilidade, da segurança alimentar e da reativação do acordo com o Mercosul — não por convicção, mas por estratégia. A Europa teme desaparecer entre o músculo financeiro americano e o apetite industrial chinês. E vê na América do Sul, especialmente no Brasil, um espaço de equilíbrio possível.

Para o Brasil, esse é o verdadeiro ponto de inflexão. Um planeta menos tenso entre Estados Unidos e China pode abrir margens para uma diplomacia mais livre com a Europa — e, por consequência, com Portugal, que continua sendo o elo simbólico e afetivo entre os dois lados do Atlântico. Mas esse mesmo cenário pode diminuir o interesse chinês por commodities brasileiras, em um momento em que o país tenta reconstruir sua posição global. O desafio é delicado: aproximar-se da Europa sem se afastar da Ásia.

O Brasil é o único país do Sul Global que fala com todos: participa dos BRICS, mantém diálogo com a Casa Branca e tem na União Europeia — e em Portugal em particular — um parceiro histórico. Mas ainda hesita entre o desejo de pertencer e o dever de liderar. Falta-lhe menos poder do que projeto; e sem projeto, nenhuma ponte resiste às marés da história.

O diálogo entre Trump e Xi, selado por um acordo sobre terras raras e pausa tarifária, revela um mundo que se reorganiza não em blocos ideológicos, mas em zonas de interesse. E talvez o desafio brasileiro — e lusófono — seja este: falar alto o bastante para não ser apenas eco. Porque, no fim, quem se cala no meio do mundo acaba por respirar o ar que os outros decidem.

Acompanhe Economia nas Redes Sociais