A excepcional língua portuguesa
O idioma oficial carrega consigo cultura e espontaneidade, resistindo à formalidade dos tratados internacionais

A língua portuguesa tem uma virtude rara: cabe em tratados internacionais, discursos oficiais e resoluções da UNESCO, mas fica sempre mais à vontade quando escapa pela boca do povo, pela literatura, pela música, pela rua e pela teimosia amorosa dos seus falantes.
Há línguas que se comportam como funcionários públicos: chegam à hora, carimbam o formulário, respeitam a norma e regressam discretamente à gaveta.
A língua portuguesa, coitada, nunca teve esse talento administrativo. Mesmo quando entra de fato escuro numa cerimónia internacional, leva escondido no bolso um samba, um fado, uma morna, uma marrabenta, uma kizomba, uma modinha, um provérbio de avó, uma frase de Camões, uma insolência de Machado, uma invenção de Mia Couto e uma gargalhada brasileira que desarruma qualquer protocolo.
A sua excepcionalidade começa precisamente aí: o português é uma língua de Estado, mas nunca aceitou ser apenas uma língua estatal. Foi oficializada, codificada, ensinada, corrigida e solenemente defendida por gramáticos que, durante séculos, tentaram convencê-la a portar-se bem. Ela agradeceu, ajeitou a vírgula, saiu pela porta dos fundos e foi viver com os pescadores, os marinheiros, os escravizados, os imigrantes, os escritores, os cantores, os feirantes, os professores, os juristas, os poetas, os vendedores de pastel, os diplomatas e as crianças que descobrem cedo que uma língua serve para pedir colo antes de servir para fazer discursos.
Por isso o Dia Mundial da Língua Portuguesa não é apenas mais uma data bonita no calendário das boas intenções. O 5 de maio nasceu na CPLP, em 2009, como celebração da língua portuguesa e das culturas lusófonas, e foi proclamado pela UNESCO em 2019 como Dia Mundial da Língua Portuguesa. A própria UNESCO lembra que o português tem mais de 265 milhões de falantes, está espalhado por todos os continentes e é a língua mais falada do hemisfério sul.
Um pormenor delicioso: o português não é uma das seis línguas oficiais da ONU. Essas são árabe, chinês, inglês, francês, russo e espanhol. Ainda assim, conquistou o seu dia mundial na UNESCO. Ou seja: entrou pela força da cultura, da demografia, da história, da literatura, da diplomacia e da expansão humana. Não entrou pela porta burocrática principal; entrou como entra muita coisa portuguesa e brasileira na vida: pela conversa, pelo encanto, pela insistência e por uma certa incapacidade de aceitar que o mundo já esteja todo arrumado.
A língua portuguesa nasce dentro dos seus membros — Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste — mas transborda deles todos. A CPLP reúne países onde o português é língua oficial, mas a língua real é muito maior do que a moldura institucional. Está nas comunidades brasileiras em Lisboa, nos portugueses de Newark, nos angolanos de Luanda e Lisboa, nos cabo-verdianos de Roterdão, nos timorenses que guardam a língua como resistência, nos moçambicanos que a reinventam sem pedir licença, nos guineenses que a atravessam com outras línguas, nos são-tomenses que a adoçam com ilha, nos goenses que a preservam como memória rara.
O português tem uma qualidade política que ainda não compreendemos plenamente: é uma língua de pertença imperfeita. Ninguém a possui inteira. Portugal não a possui, porque o Brasil a multiplicou. O Brasil não a possui, porque África a abriu em muitas direções. África não a possui sozinha, porque Timor a transformou em cicatriz e renascimento. A academia não a possui, porque a rua chega sempre primeiro. A norma não a possui, porque a fala humana tem o hábito revolucionário de continuar viva.
E há aqui uma ironia maravilhosa. A língua que tantos tentam defender como se fosse uma relíquia é precisamente uma das línguas mais difíceis de embalsamar. Cada vez que alguém diz “a verdadeira língua portuguesa”, a própria língua deve sorrir com pena, como quem vê um porteiro tentar controlar o oceano com uma prancheta. A língua portuguesa não é verdadeira por ser pura. É verdadeira por ser impura, atravessada, mestiça, contraditória, abusada, musical, jurídica, popular, barroca, económica, diplomática, doméstica e planetária.
Celebrar a nossa língua não é fazer uma missa pela saudade. É reconhecer uma infraestrutura de futuro. O português é mercado, ciência, literatura, tecnologia, turismo, diplomacia, cinema, música, educação, comércio, inteligência artificial, cidadania e poder simbólico.
Porque a língua portuguesa, no fundo, é isto: uma língua que começou por caber num reino pequeno, atravessou mares grandes, cometeu pecados históricos imensos, sobreviveu às suas culpas, foi apropriada pelos povos que a receberam, devolvida com sotaques novos, e hoje já não pertence ao passado de ninguém. Pertence ao futuro de todos os que a fazem.



