José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

A França que foi, a França que pode ser

"A língua francesa é a do coração, a inglesa é a do comércio" — escreveu Voltaire. Entre a ironia do filósofo e o destino do século XXI, há uma história que ainda não terminou.

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Viajo pela França com meus filhos,e a cada cidade, cada praça, cada monumento, sinto que há uma grande França que desapareceu. A França das minhas primeiras aulas de francês, quando aprender a língua era ingressar num mundo de cultura, de diplomacia e de ideias. A França que, no século XX, iluminava a Europa com Sartre e Beauvoir, encantava com a Nouvelle Vague, dava voz à rebeldia estudantil de 68 e ainda mantinha, na figura de De Gaulle, a ilusão de uma soberania solitária num planeta dividido entre Washington e Moscovo. Essa França era não apenas um país, mas uma promessa civilizacional.

Hoje, a paisagem é outra. A França perdeu o estatuto de centro do mundo. A revolução digital falou inglês desde o primeiro código-fonte, os algoritmos nasceram em Silicon Valley, e a linguagem da informática empurrou o francês para um lugar lateral. A hegemonia cultural, que antes se media em cafés literários e cinemas de arte, mede-se agora em redes sociais globais, em séries americanas, em plataformas que dispensam legendas e uniformizam sotaques. O francês, outrora língua de diplomacia, tornou-se uma língua bela, mas que precisa lutar pela sua relevância.

E, no entanto, há algo que não morreu. A França continua a ser depositária de uma herança única: a da sua democracia universalista. Liberdade, igualdade, fraternidade — são palavras que resistem mesmo quando as ruas de Paris se enchem de protestos, mesmo quando o extremismo ameaça corroer o edifício republicano.
Essa ideia de democracia — imperfeita, mas corajosa — é talvez a maior contribuição francesa ao mundo. E é dela que pode nascer um papel novo: não mais o de irradiar um modelo incontestado, mas o de participar, em diálogo e em exemplo, na definição dos sistemas do futuro.

Num mundo fragmentado entre superpotências tecnológicas e tensões identitárias, a França pode oferecer algo que nem os algoritmos conseguem programar: a consciência crítica, a valorização da diferença, o humanismo que não se deixa engolir pelo pragmatismo da língua inglesa. Não se trata de recuperar uma glória perdida, mas de reinventar a relevância.

Sei, ao olhar os olhos curiosos dos meus filhos enquanto atravessamos as ruas de Nice ou Marselha, que a França que vivi na juventude já não existe. Mas talvez esta França, que oscila entre a nostalgia e a necessidade de se reinventar, entre tensões demográficas e multiculturalismos vibrantes, esteja preparando algo maior para a arquitetura democrática do futuro.

Se a França de ontem nos ensinou a pensar; talvez a França de amanhã possa ensinar-nos a sobreviver.