José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

A transição energética nunca existiu?

Se a mudança de paradigma energético estivesse realmente em fase avançada o mundo não tremeria por causa petróleo

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Sempre que a história acelera, o planeta recorre ao mesmo reflexo. Abrem-se reservas estratégicas, acalmam-se os mercados, tenta-se impedir que o preço da energia contagie a economia inteira.

Este mecanismo, coordenado desde os anos 1970 pela Agência Internacional de Energia, funciona como uma espécie de sistema nervoso da ordem económica global. Quando o choque chega, os governos recorrem ao crude armazenado como quem procura um desfibrilhador para reanimar o mercado.

A repetição desse gesto revela uma verdade pouco confortável. Durante duas décadas, o mundo habituou-se a falar de transição energética como se fosse um processo já consumado. Painéis solares multiplicam-se, turbinas eólicas povoam paisagens e carros elétricos tornaram-se símbolos de modernidade. A narrativa é poderosa: estamos a sair da era do petróleo.

Mas a realidade continua a contar outra história. Segundo o mais recente World Energy Outlook, cerca de 80% da energia consumida no planeta ainda depende de combustíveis fósseis.

As renováveis crescem com velocidade, mas não substituíram o sistema que sustenta a civilização industrial. O que existe hoje não é uma troca de energia — é uma sobreposição.

Novas fontes entram no sistema enquanto as antigas continuam a suportar transporte marítimo, fertilizantes, aviação, indústria pesada e a vasta maquinaria logística que mantém o comércio mundial em movimento.

É nas crises que essa arquitetura invisível se revela. Quando as tensões geopolíticas ameaçam o fluxo de energia, a resposta não é recorrer ao sol ou ao vento. A resposta é garantir que o petróleo continue a circular.

Este detalhe ganha dimensão estratégica inesperada para o espaço lusófono. Num mundo onde a energia volta a ditar o ritmo da política internacional, países com reservas ou posição logística relevante recuperam centralidade.

O Brasil, com o pré-sal entre as maiores descobertas energéticas deste século, torna-se novamente um ator de peso no tabuleiro global. Portugal, inserido nas rotas atlânticas e na arquitetura energética europeia, pode reforçar o seu papel como ponte logística e diplomática entre mercados.

Crises energéticas sempre redesenharam mapas de poder. A atual não foge à regra. Ela apenas lembra aquilo que o entusiasmo tecnológico tentou antecipar demasiado cedo: que o século XXI continua a mover-se com a mesma matéria-prima que organizou o século XX.

O petróleo não regressou ao centro da história. Ele nunca saiu de lá.

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