Choque global? As possíveis consequências do ataque dos EUA à Ilha de Kharg

Território é responsável pelo processamento de 90% do petróleo cru que é exportado pelo país, sendo possível alvo do governo americano

Tiago Tortella, da CNN Brasil
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Na sexta-feira (13), o presidente americano, Donald Trump, anunciou que todos os alvos militares da ilha de Kharg, localizada a 30 km da costa do Irã, foram destruídos. Segundo o presidente americano, o "Comando Central dos EUA executou um dos bombardeios mais poderosos da história do Oriente Médio, obliterando todos os alvos militares".

Ainda segundo a postagem, o presidente americano disse que optou por não destruir a infraestrutura petrolífera da ilha "por razões de decência". Trump ameaçou reconsiderar a decisão caso o Irã ou qualquer outro país interfira na passagem de navios pelo Estreito de Ormuz.

A Ilha de Kharg, de acordo com analistas, pode se tornar um ponto de virada no conflito e alterar o cenário da região por anos.

Uma apuração do portal Axious indicou que o governo dos Estados Unidos discutiu a possível tomada da Ilha de Kharg, o que gerou alerta em autoridades.

O que é a Ilha de Kharg e qual sua importância?

A Ilha de Kharg pertence ao Irã e está localizada a cerca de 30 km da costa do país, no Golfo Pérsico.

Apesar de ser relativamente pequena em tamanho, ela tem importância crucial para o regime iraniano, sendo o principal terminal para exportação de petróleo do país. Ela é responsável pelo processamento de 90% do petróleo cru que é exportado pelo Irã.

Gilvan Bueno, analista da CNN Money, explica que as receitas de exportação de petróleo historicamente representavam entre 25% e 40% do orçamento do regime iraniano.

Assim, ele destaca que a Ilha de Kharg não é apenas um terminal logístico, mas "a principal avenida de crescimento financeiro do regime".

A ilha recebe petróleo que chega por oleoduto dos maiores campos produtores do Irã, incluindo Ahvaz, Marun e Gachsaran.

A capacidade de armazenamento em Kharg é estimada em cerca de 30 milhões de barris. Segundo a consultoria Kpler, aproximadamente 18 milhões de barris de petróleo bruto estão armazenados atualmente na ilha, o equivalente a cerca de 10 a 12 dias de exportações em condições normais.

O que pode acontecer se a Ilha de Kharg for atacada?

O impacto de um ataque à Ilha de Kharg poderia ser devastador para o Irã, mas também seria muito danoso para a economia global.

O banco de investimentos JP Morgan destacou em nota que as exportações de petróleo iraniano seriam paralisadas e a produção cairia pela metade se os EUA e Israel tomassem o porto no local. Segundo o banco, isso desencadearia novos ataques do país à infraestrutura petrolífera regional.

O CSIS (Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington) estimou que um ataque à ilha ou bloqueio de suas instalações poderia elevar os preços do petróleo em cerca de US$ 10 por barril.

"Sob cenários de ruptura severa, os preços podem ultrapassar US$ 100 por barril", alerta Gilvan Bueno.

O analista ressalta ainda que a possível destruição da infraestrutura de petróleo do Irã poderia paralisar o país por anos, mesmo que o atual regime caia, fazendo com que um novo governo tivesse dificuldade para oferecer serviços básicos e estabilizar preços.

"Em outras palavras, destruir as instalações de petróleo e gás do Irã poderia bloquear o caminho para uma transição democrática", avalia.

Outro ponto delicado em uma possível operação contra a Ilha de Kharg é que a tomada do território exigiria tropas em solo, algo que o governo americano, incluindo o presidente Donald Trump, tem dito que não deve fazer.

"Kharg é uma faca de dois gumes para quem a atacar. Destruir significa choque global de petróleo e dano permanente a qualquer futuro governo iraniano. Tomá-la requer tropas em campo e um alvo perene para retaliação", conclui Gilvan Bueno.

*com informações da Reuters