José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Análise: Em tempo de guerra, é sempre Dia da Mentira

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Hoje, o mundo acordou com uma frase de guerra e um desmentido imediato: Trump disse que o Irã pediu cessar-fogo; a televisão estatal iraniana respondeu que isso era falso e sem fundamento. Nem parecia primeiro de Abril. Sendo o fato simples, a pergunta é enorme: numa guerra, quem controla primeiro a versão leva vantagem no campo de batalha.

O acaso do calendário tornou tudo mais revelador. A declaração e o desmentido aconteceram em 1º de abril, data historicamente associada à credulidade pública, embora a origem da efeméride permaneça incerta. A coincidência expõe uma verdade antiga: a guerra nunca viveu apenas de tanques, mísseis e cadáveres. Vive também de frases lançadas no momento certo, de rumores úteis, de versões montadas para testar o medo, mover mercados e desorientar adversários.

A história militar conhece bem esse método. A Operação Mincemeat fez circular documentos falsos para desviar a atenção alemã antes da invasão da Sicília. A Operação Fortitude ajudou a convencer Hitler de que o desembarque principal viria por outro ponto da Europa. A chamada Ghost Army usou tanques infláveis, caminhões de som e rádio fingido para fabricar presenças inexistentes. A mentira, em guerra, recebeu uniforme, orçamento e doutrina.

O que muda no nosso tempo é a velocidade. Ontem, a mentira precisava de correios, agentes duplos e cadáveres plantados. Hoje, ela sai por uma rede social presidencial, atravessa bolsas, petróleo, redações e telejornais em minutos. O seu poder já não depende apenas de ser acreditada. Basta que seja repetida cedo o suficiente para contaminar o ambiente, criar hesitação e instalar uma névoa moral em que toda verdade chega atrasada.

É por isso que o episódio de hoje vale mais do que a disputa entre Washington e Teerã. Ele mostra que a guerra contemporânea se trava em dois mapas ao mesmo tempo: o da geografia e o da percepção. Um território pode ser bombardeado por aviões; uma opinião pública pode ser bombardeada por enunciados. O primeiro ataque destrói pontes, portos e cidades. O segundo corrói a própria ideia de realidade comum.

No dia da mentira, a guerra prestou uma homenagem involuntária à sua arma mais antiga. O problema é que, desta vez, o alvo já não é apenas o inimigo. Somos todos nós, transformados em retaguarda emocional de conflitos que chegam embalados como narrativa, espetáculo e impulso. Toda guerra começa por ferir corpos. As guerras mais perigosas também ferem o critério.