José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Análise: Por que Melania trouxe o caso Epstein de volta à tona?

Aliados e observadores notaram o caráter extraordinário de intervenção da primeira-dama que quase nunca se expõe

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Quando uma primeira-dama que quase nunca se expõe decide falar e se coloca no centro da tempestade, o fato vale mais do que a frase. O que Melania Trump fez não foi apenas negar uma ligação a Jeffrey Epstein, foi mostrar que o escândalo voltou a tocar uma zona sensível demais para ficar entregue só ao ruído

Há acontecimentos que levam mais tempo para se entender. Este é um deles. Melania Trump apareceu na Casa Branca na semana passada para negar qualquer relação com Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell. Disse que conheceu Donald Trump independentemente deles, classificou como trivial um antigo contato por e-mail com Maxwell e ainda pediu ao Congresso que ouvisse vítimas do caso.

O gesto foi raro, calculado(?) e politicamente eloquente. Até aliados e observadores notaram o caráter extraordinário da intervenção, e houve relatos de que o próprio Trump não sabia previamente da fala. Quando isso acontece no núcleo blindado do poder, o mais importante deixa de ser o conteúdo, passa a ser a necessidade dele.

Pense. Melania não entrou em cena para esclarecer um detalhe biográfico. Entrou porque o escândalo Epstein volta(rá) a ter densidade política inescapável em um momento em que o governo já lida com desgaste em outros flancos.

Sendo este um governo altamente personalizado, a família presidencial não é apenas família, funciona também como uma extensão do aparelho de contenção. Quando a primeira-dama assume o púlpito — e o faz na Casa Branca — o poder sinaliza que o problema saiu do domínio da fofoca e entrou no da ameaça reputacional séria. Um antigo diretor da CIA, Joel Brenner sempre dizia: “if you cannot avoid the facts, you must embrace them" ("Se não pode evitar os fatos, aceite-os" em tradução livre).

Há ainda um segundo nível, muito relevante de análise. Ao pedir audiências públicas com vítimas, Melania tenta deslocar o foco da suspeita sobre proximidade para o terreno moral da justiça. Mas logo várias vítimas reagiram dizendo que já falaram o suficiente e que o ônus agora não pode continuar sendo delas, mas das instituições que retêm documentos, evitam transparência e administram o caso com cálculo político. Esse contraste é ainda mais devastador, porque revela o limite tático da manobra. Melania sabe que numa era saturada de escândalos, já não basta parecer indignado, é preciso convocar a dor alheia como espelho que reflete a nossa própria margem.

A atual primeira dama americana sempre cultivou um tipo de poder frio: presença seletiva, poucas palavras, distância social convertida em aura presidencial. A sua aparição foi uma surpresa total que deixou todos na boca de todos a mesma pergunta: Porquê?

Quando a personagem mais silenciosa do palácio decide falar de repente, estará o sistema inteiro querendo confessar que o escândalo ainda respira e vai acordar mais forte e feroz que nunca?