José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Do altar ao algoritmo: nem a fé protege a intimidade

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Na Itália, o país mais católico da Europa, um grupo do Facebook com 32 mil membros foi fechado depois de homens trocarem durante anos fotos íntimas de suas esposas sem consentimento.

Centenas de imagens circularam com comentários sexistas, até que denúncias em massa obrigaram a plataforma a agir. Só então o crime foi interrompido. A polícia recebeu quase três mil queixas. O episódio expõe mais que voyeurismo: revela como o corpo feminino é reduzido a dado circulável, protegido apenas quando a indignação viraliza.

O contraste é cortante. Num país em que a fé católica insiste no valor da família, a figura da esposa foi convertida em ativo de troca digital, numa espécie de mercado paralelo da intimidade. A distância entre altar e algoritmo não é detalhe cultural, mas sinal de uma crise maior: a incapacidade de sustentar no espaço virtual os valores proclamados no espaço público.

Essa fissura aproxima a Europa do Sul Global de forma inesperada. Se em Roma homens organizam grupos para partilhar imagens sem consentimento, em Lagos ou em São Paulo jovens mulheres têm suas fotos íntimas replicadas em aplicativos clandestinos ou usadas em deepfakes pornográficos.

O denominador comum é a arquitetura das big techs: projetada para maximizar engajamento, lenta para proteger vítimas, veloz para monetizar a violência. Não importa se o cenário é um país rico, católico e europeu, ou uma periferia do mundo conectado — a lógica de exploração é a mesma.

Há quem defenda que exigir vigilância mais forte das plataformas ameaça a liberdade de expressão. Mas esse argumento dissolve-se quando o que está em jogo é violência sexual mediada por tecnologia. O que falta não é fé nem lei, mas coerência: não se pode exaltar a dignidade da família ao domingo e ignorar que, no resto da semana, algoritmos transformam mulheres em mercadorias digitais.

O episódio italiano serve de alerta global. Se no coração católico da Europa a intimidade conjugal pôde ser convertida em espetáculo, no Sul Global, mesmo com sociedades mais desiguais, muitas vezes — como aconteceu com o caso do influenciador Felca, a capacidade de denúncia atinge resultados notáveis, e inesperados.

A resposta necessária só pode ser uma: alinhar lei e tecnologia. Porque sem isso, seja em Milão ou em Maputo, em Roma ou em Brasília, o corpo humano continuará sendo moeda na economia obscura do engajamento digital. A mesma economia que cotidianamente, corrói fundamentos da democracia.