Europa deixa de procurar no Google
Mudança simboliza um passo político em busca de maior soberania digital e menor dependência de empresas estrangeiras

Desde 4 de junho, o Parlamento Europeu faz suas buscas com o Qwant, uma ferramenta de pesquisa, no lugar do Google. A mudança é reversível e simples, mas revela o momento em que a Europa admite politicamente a necessidade de uma soberania digital.
Na manhã do dia 4 de junho, deputados e funcionários do Parlamento Europeu encontraram uma pequena alteração em seus computadores: o Qwant passou a ser o mecanismo de busca predefinido nos navegadores Edge e Firefox.
Quem desejar pode continuar usando o Google, mas o automatismo institucional mudou de nacionalidade.
A alteração parece insignificante diante da enorme dependência tecnológica europeia, mas é por isso que merece atenção. Quanto de soberania resta a um continente que escreve suas leis, arquiva seus documentos, guarda seus dados e organiza seu conhecimento em infraestruturas pertencentes a empresas estrangeiras?
Por duas décadas, a Europa se tornou a maior potência regulatória do mundo digital. Criou regras para privacidade, mercados de tecnologia, plataformas e inteligência artificial, aprendeu a disciplinar empresas que não conseguia mais produzir. O resultado é uma estranha forma de autoridade.
Bruxelas, capital da Bélgica, escreve algumas das leis mais avançadas do planeta em computadores, sistemas operacionais, nuvens e programas predominantemente estadunidenses.
Um estudo solicitado pelo próprio Parlamento concluiu que empresas dos Estados Unidos dominam as principais camadas do ecossistema europeu de software e nuvem.
No atual momento geopolítico, essa dependência deixou de ser apenas econômica; tornou-se vulnerabilidade política, industrial e democrática.
O Qwant está longe de resolver o problema. A alternativa francesa ainda possui escala reduzida e, durante parte importante de sua história, dependeu da infraestrutura de busca da Microsoft.
A tentativa de construir, ao lado da ferramenta de busca alemã Ecosia, um índice europeu mais autônomo mostra justamente a dificuldade da tarefa. Até mesmo a independência tecnológica europeia precisa começar utilizando as ferramentas de quem se deseja deixar de depender.
Soberania tecnológica não se constrói apenas trocando de mecanismo de busca. A aproximação com o Mercosul oferece à Europa a possibilidade de diversificar parceiros e incorporar soluções criadas fora do eixo norte-americano.
Aprender com o pix sobre autonomia financeira poderia ser uma ideia a seguir para parar de depender da arquitetura monetária tradicional também controlada pelos Estados Unidos.
O gesto europeu chega tarde e ainda é pequeno. Mas as coisas só começam a mudar quando percebemos que os hábitos mais confortáveis são as mais perigosas formas de dependência.
Durante anos, a Europa perguntou ao mundo por máquinas alheias. Agora, diante do campo branco de um buscador quase desconhecido, começa finalmente a procurar-se.



