José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Master, Epstein & companhia

Dois escândalos — um no sistema financeiro brasileiro e outro no coração das elites globais — expõem a mesma ferida: quando o poder deixa de responder ao escrutínio, a democracia corre o risco de virar fachada

Compartilhar matéria

colapso do Banco Master, envolto em redes de influência e opacidade financeira, e a polêmica revelação dos arquivos Epstein, que expõem a cumplicidade silenciosa de elites globais em práticas criminosas são sintomas de um mesmo fenômeno: a erosão da confiança pública numa ordem global onde o poder se organiza fora do alcance da responsabilização democrática. 

A democracia continua a existir nas formas — eleições, parlamentos, tribunais —, mas vê o seu conteúdo esvaziado por redes mais ou menos informais de poder econômico e político que operam em circuitos fechados. Este é o diagnóstico da chamada “pós-democracia”, conceito desenhado por Colin Crouch, que descreve sociedades onde a decisão real se desloca para uma minoria organizada, enquanto a maioria mantém apenas a aparência de participação. 

É uma crise generalizada e sistêmica. A globalização financeira, a digitalização da informação e a reconfiguração geopolítica criaram um ambiente em que elites econômicas e políticas se protegem em redes transnacionais, quase sempre acima das leis nacionais. 

Por isso a resposta que hoje é exigida à sociedade não pode ser nostálgica nem simplista, pois não se trata de regressar a um passado (que já não existe), mas sim de construir uma democracia capaz de operar à escala do poder contemporâneo; e isso implica três movimentos estruturais. 

Primeiro, uma nova regulação global do sistema financeiro, com transparência efetiva sobre fluxos de capital, cooperação internacional entre supervisores e responsabilização penal real para redes de corrupção e abuso de poder. 

Segundo, a reconstrução do ecossistema informacional. O jornalismo investigativo precisa de proteção e financiamento, as plataformas digitais devem ser responsabilizadas pela circulação de desinformação e a pluralidade de vozes tem de ser garantida.  

Terceiro, a reconfiguração do papel do cidadão. A democracia do século XXI exige literacia econômica, participação ativa e organização em redes de vigilância cívica. A passividade deixou de ser uma opção sustentável. É preciso começar a resolver esse problema a partir da escola e desde a mais tenra idade. 

A humanidade e cada um de nós encontra-se em um momento fulcral — ou conseguimos reinventar mecanismos de controlo democrático, ou num future breve a democracia subsistirá apenas como ritual, 

A questão não é sequer ideológica — é civilizatória. Queremos continuar como protagonistas da vida pública ou vamos nos resignar a ser apenas espectadores?