Novo presidente de Portugal promete estabilidade para resolver problemas
Antonio José Seguro parece querer exercer aquilo que historicamente define a instituição da presidência da república portuguesa: uma magistratura de equilíbrio

Há momentos em que um país precisa menos de entusiasmo e mais de serenidade. A tomada de posse do socialista António José Seguro como novo presidente da República de Portugal foi um desses momentos — um convite à estabilidade num tempo em que tantas democracias vivem em permanente sobressalto.
O novo chefe de Estado português deixou uma ideia clara logo no início do seu mandato: a simples rejeição de um orçamento não pode transformar-se automaticamente numa crise política.
Democracias maduras vivem de negociação e compromisso. A política portuguesa precisa abandonar a lógica da emergência permanente e recuperar algo que se tornou raro no mundo contemporâneo — o tempo longo.
Talvez por isso uma das propostas mais interessantes do discurso tenha sido a referência a orçamentos plurianuais e avaliação de resultados. A ideia parece técnica, mas revela uma visão de país. Governar é decidir hoje com impacto que ultrapassa o ciclo eleitoral.
A cerimônia teve também um sinal diplomático relevante. Apesar da ausência de Lula da Silva, com “compromissos diplomáticos em Brasilia”, seis chefes de Estado estrangeiros estiveram presentes em Lisboa: o rei Filipe VI de Espanha e os presidentes João Lourenço (Angola), Daniel Chapo (Moçambique), José Maria Neves {Cabo Verde), Carlos Vila Nova (São Tomé) e José Ramos‑Horta (Timor‑Leste).
Presenças que mostram Portugal ocupando um lugar singular no mundo: um país europeu com raízes profundas no Atlântico e na comunidade de língua portuguesa.
No discurso, Seguro identifica dois desafios estruturais que marcarão o futuro do país luso. O primeiro é a igualdade entre homens e mulheres, apresentada como uma fronteira civilizacional que precisa de ser plenamente cumprida.
O segundo é a crise demográfica; Portugal envelhece rapidamente e sem uma estratégia consistente corre o risco de enfrentar um lento enfraquecimento econômico e social.
Olhando para o mundo, António José Seguro adverte: cuidar da democracia tornou-se uma tarefa urgente. Em muitas partes do mundo a confiança nas instituições diminui, a polarização cresce e a política transforma-se num espetáculo permanente.
O novo presidente luso parece querer exercer aquilo que historicamente define a instituição da presidência da república portuguesa: uma magistratura de equilíbrio.
Mas hoje, em Lisboa, no seu primeiro discurso como PR, estiveram presentes duas referências literárias: uma contemporânea e outra histórica. A primeira do escritor Gonçalo M. Tavares, lembrando que a Europa continua a ser “uma ideia humana que precisa de brilhar nas noites mais escuras”; e a segunda, de Luís de Camões, convocado para recordar uma verdade antiga: “as coisas árduas e luminosas constroem-se com trabalho e fadiga”
Portugal conhece bem a lição da sua própria história. Quando pensa pequeno, administra o presente. Quando pensa grande, surpreende o mundo. Seguro parece querer devolver a Portugal essa ambição tranquila.



