O eterno direito de existir
Conflito em Gaza mostra que direito de existir ainda continua sendo o bem mais precário do mundo

Há algo de bíblico nas imagens que chegam de Gaza: milhares de pessoas se amontoando entre ruínas, agarradas a sacos de farinha, garrafas de água, pedaços de pão.
Rostos exaustos, corpos famintos, braços levantados na esperança de uma distribuição que, se vier, não será justiça, mas migalha.
A fotografia, ilustrando a ameaça diplomática do Reino Unido — reconhecer o Estado da Palestina caso Israel não cesse o fogo — é mais do que ilustração. É síntese. Um povo cercado não apenas por muros e drones, mas pelo esquecimento.
A novidade política — a guinada britânica — parece imensa. Mas talvez o mais impressionante seja justamente a sua demora. Por quanto tempo se pode negar o óbvio sem que isso se torne cumplicidade?
O Reino Unido quer, agora, condicionar a sobrevivência palestina a uma trégua, como se a existência de um povo fosse algo que se negocia.
Ao mesmo tempo, artistas e intelectuais israelenses começam a pedir sanções contra seu próprio governo. Como se quisessem dizer: o que está acontecendo já não é nosso, é um abismo que nos ultrapassa. Chegamos ao ponto em que os gestos de coragem são os de admitir a vergonha.
O eterno neste conflito mora na eterna recusa em aceitar o outro como igual. A Palestina representa, há mais de sete décadas, esse lugar onde a identidade só é tolerada se dócil, onde a resistência é criminalizada, e onde a memória é tratada como ameaça.
Claro que há antítese. Muitos dirão que Israel tem o direito à segurança, que o Hamas é terrorista, que a equação é complexa. E, de fato, é. Mas há um ponto em que a complexidade se transforma em pretexto.
Não é possível invocar o direito à defesa para justificar a morte de crianças famintas. Não é possível bombardear bairros inteiros e chamá-lo de autodefesa. O sofrimento civil não pode ser estatística nem “dano colateral” — é um juízo moral.
Reconhecer a Palestina não deveria ser um instrumento de pressão, mas um dever histórico. A postergação desse reconhecimento é a própria definição de covardia diplomática: saber o que é certo, mas esperar que outro o faça primeiro.
E, mesmo quando se anuncia, como faz agora o Reino Unido, o gesto vem com cláusulas, prazos e avisos. Como se o direito à terra, ao idioma e à história ainda precisasse de selo europeu para valer.
Não há nada mais antigo do que prometer paz e entregar cinzas. E não há nada mais urgente do que interromper essa repetição.
As fotografias da fome, que a humanidade julgava já ter esquecido e que voltamos a ver em Gaza não são o retrato de uma emergência — são o espelho de uma omissão.
E o que ali se vê não é o passado. É o futuro que escolhemos recusar, todos os dias, enquanto não reconhecemos que existir não é um privilégio, mas uma evidência.



