José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

O que Trump ganha com a reabilitação de Nixon?

Reabilitação de Nixon permite apresentar limites impostos a um presidente como atos de perseguição; Trump ganha com essa revisão, e os seus sucessores poderão ganhar ainda mais

Richard Nixon regressou às telas dos celulares, com discursos antigos montados ao som de música e uma nova geração de admiradores à espera do próximo vídeo.

Cinquenta e dois anos depois de ter deixado a Casa Branca por causa do escândalo de Watergate, o ex-presidente está sendo recuperado por setores da direita dos Estados Unidos, num entusiasmo que já chegou ao vice-presidente JD Vance.

Em junho, Vance afirmou que, se o Watergate acontecesse hoje, seria uma notícia de "12 horas", e aproximou a queda de Nixon das perseguições que diz terem sido dirigidas contra Trump.

A comparação serve aos dois: oferece ao primeiro uma nova reputação e ao segundo um antepassado respeitável para a sua narrativa de vítima.

Juntos, passam a habitar uma história em que o poder eleito está sempre cercado por inimigos escondidos.

Em 1972, homens ligados à campanha de reeleição de Nixon foram flagrados na sede do Partido Democrata, no complexo Watergate, em Washington; a investigação revelou depois uma operação de encobrimento que chegava à Presidência.

As gravações da Casa Branca mostraram Nixon aprovando o uso da CIA, a agência de inteligência dos EUA, para travar a investigação do FBI, a agência federal de investigações.

A voz de Nixon ter sido capturada na gravação tornou insustentável a distância que ele tentou estabelecer entre o gabinete presidencial e os responsáveis pelo caso.

A imprensa investigou, os tribunais exigiram provas e o Congresso cumpriu o seu papel, mas a queda tornou-se inevitável quando Nixon perdeu o apoio de dirigentes republicanos.

Em agosto de 1974, ele renunciou perante a perspetiva de destituição.

Havia ali uma decisão que continua incomodando: um partido aceitava perder o seu presidente porque mantê-lo passaria a custar mais do que afastá-lo. Essa fronteira podia ser atravessada até por quem ganhasse as eleições.

A utilidade política desta recuperação está em deslocar essa fronteira. Quando a responsabilização de um presidente é recontada como conspiração, o partido pode tratar qualquer recuo como traição, e os eleitores são convidados a defender o seu homem contra as próprias instituições que deveriam protegê-los dos abusos dele.

A acusação reforça a pertença; a prova pode ser recebida como mais um sinal de perseguição. A discussão sobre os atos do governante fica presa à identidade de quem o acusa.

Nixon tem lugar na história para além de Watergate, desde logo pela aproximação à China, que alterou o equilíbrio da Guerra Fria.

Uma avaliação séria comporta esses méritos e os abusos documentados, sem precisar apagar nenhum deles.

O salto político acontece quando a revisão da sua carreira passa a desqualificar os mecanismos que a interromperam. Nesse momento, a homenagem ao ex-presidente começa a funcionar como defesa antecipada dos atuais.

Talvez um Watergate durasse hoje apenas 12 horas no centro da atenção, como sugere Vance. Essa brevidade diria muito sobre a nossa capacidade de acompanhar um caso e nada resolveria sobre a responsabilidade de quem o praticou.

O precedente de 1974 preservava a possibilidade de um partido abandonar um presidente sem abandonar a democracia. Se também isso passar a ser considerado uma traição, o próximo ocupante da Casa Branca saberá que pode contar com os seus mesmo depois de atravessar a linha.