José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

O tabu que caiu no sul do mundo

Ataque estadunidense à Venezuela não é apenas um episódio de força militar: é o sinal de que a América do Sul deixou de ser periferia estratégica e entrou, de forma irreversível, no tabuleiro global de disputa com a China

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A captura de Nicolás Maduro após um ataque militar em larga escala conduzido pelos Estados Unidos marca um ponto de inflexão que vai muito além da Venezuela. Não é apenas uma mudança de regime. É a queda de um tabu geoestratégico que estava em vigor desde o fim da Guerra Fria: a ideia de que a América do Sul permaneceria fora do raio direto de ações militares entre grandes potências.

O que torna este episódio verdadeiramente disruptivo não é a força empregada, mas o tempo histórico em que ocorre. Quando os Estados Unidos capturaram Manuel Noriega no Panamá, em 1989, o mundo era unipolar. Hoje, qualquer operação dessa natureza é automaticamente lida por China como um movimento num tabuleiro maior. Não por acaso, a última aparição pública de Maduro foi em diálogo com autoridades chinesas, num momento em que Pequim consolidava sua presença energética e financeira na Venezuela.

O silêncio inicial da China é, paradoxalmente, o dado mais eloquente. Pequim raramente reage de imediato quando não quer errar o tom. Prefere medir consequências. E a consequência central aqui é clara: se Washington normaliza o uso da força militar direta na América do Sul, todo o desenho de estabilidade periférica do sistema internacional entra em revisão. A região deixa de ser “zona de influência” e passa a ser zona de fricção.

 

Há também um silêncio europeu que merece atenção. A Europa depende cada vez mais de rotas energéticas, estabilidade financeira e previsibilidade diplomática. Um precedente como este — um chefe de Estado retirado do poder por força externa — fragiliza o próprio discurso europeu de defesa da ordem internacional baseada em regras. Para países como Portugal, historicamente ligados ao Atlântico Sul e à América Latina, o risco é duplo: instabilidade política num espaço estratégico e pressão crescente para alinhamentos automáticos.

Mas é na relação com a China que o impacto se torna verdadeiramente global. Pequim investiu décadas construindo influência na América Latina sem recorrer a intervenção militar, apostando em financiamento, infraestrutura e energia. Um ataque desta natureza obriga a China a rever custos, garantias e, sobretudo, a segurança política dos seus investimentos. Não é improvável que a resposta chinesa venha menos sob a forma de retaliação direta e mais como aceleração de alternativas: reforço de alianças no Sul Global — nomeadamente em África — diversificação monetária e pressão silenciosa em fóruns multilaterais.

Hoje é óbvio que o mundo entrou numa fase em que geografias antes consideradas periféricas passam a ser centrais na disputa entre potências. A América do Sul, durante décadas tratada como espaço de baixa intensidade geopolítica, acaba de ser reposicionada. Não por escolha própria, mas por decisão alheia.

A questão que fica não é se a Venezuela de Maduro sobreviverá politicamente a este choque. É se o sistema internacional sobreviverá à normalização da força como linguagem diplomática num mundo onde já não existe árbitro único. Quando Washington age assim, Pequim observa. E, historicamente, quando Pequim observa em silêncio, é porque está a redesenhar o mapa.