José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

O tamanho do Brasil fora do Brasil

Na Praia, em Cabo Verde, a poesia brasileira revela uma influência que atravessa gerações. O Brasil pode compreender melhor o seu lugar no mundo prestando atenção a quem o lê.

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Na cidade da Praia, em Cabo Verde, o encontro de escritores de língua portuguesa, organizado pela UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa), pela Câmara Municipal da Praia e pela EMEP, decorre de 8 a 10 de outubro e dedica uma das suas mesas à poesia brasileira do século XX.

Vou moderar essa conversa num país onde os livros brasileiros ajudam a compreender a dimensão do Brasil para além das suas fronteiras.

Na década de 1930, a poesia de Manuel Bandeira tornou-se uma referência para os escritores ligados à revista Claridade, nascida em 1936. Num arquipélago ainda sob domínio colonial português, o modernismo brasileiro oferecia a experiência de uma literatura que procurava a sua própria maneira de dizer o mundo. Havia, do outro lado do oceano, autores a mostrar que a vida local, com as suas dificuldades e a sua fala, podia ocupar o centro de um livro.

Os escritores cabo-verdianos fizeram dessa descoberta matéria para uma criação própria. A importância do encontro está nessa liberdade: uma obra ganha outra vida quando alguém a interpreta a partir de uma experiência que o seu autor desconhece. O Brasil ajudava a alargar as possibilidades da língua recebida de Portugal, enquanto Cabo Verde encontrava nessa transformação recursos para escrever a sua diferença.

É habitual medir a presença internacional de um país pelas mercadorias que vende, pelos acordos que assina ou pelo peso das suas intervenções diplomáticas. Os livros trabalham noutro ritmo, menos sujeito ao calendário dos governos. Uma obra pode acompanhar alguém durante décadas e participar na maneira como uma sociedade se reconhece, muito depois de esquecidos os discursos que anunciavam a sua importância.

Seria um erro transformar esta história numa medalha para o orgulho brasileiro. A força de uma obra depende da liberdade de quem a acolhe, escolhe, contesta e transforma; perde substância quando serve apenas para confirmar a grandeza de quem a produziu. O valor do vínculo entre Brasil e Cabo Verde está precisamente na capacidade de gerar vozes distintas, capazes de conversar sem se confundirem.

Essa conversa fica incompleta quando a curiosidade viaja num único sentido. Ao interesse cabo-verdiano pela literatura brasileira deveria corresponder uma atenção brasileira aos escritores das ilhas, às suas experiências de partida, pertença e distância. Ler Baltasar Lopes ou Jorge Barbosa permite ao leitor brasileiro entrar numa experiência própria, que também pode alterar a maneira como olha para o seu país.

Para isso, a política cultural precisa de acompanhar o percurso inteiro do livro: a edição, a chegada às bibliotecas, o encontro com professores e leitores. Portugal e Brasil podem contribuir para esse processo, em parcerias que deem aos autores e editores dos restantes países condições para alcançar novos públicos. Uma língua partilhada oferece proximidade; o vínculo constrói-se com trabalho e atenção.

É esse Brasil, acolhido e recriado pelos seus leitores, que me interessa encontrar na Praia. Quando uma obra ajuda outra pessoa a escrever a própria terra, o país de onde veio passa a fazer parte de uma história maior. Cabe-nos agora abrir espaço na estante para os livros que fazem a viagem de regresso.