Caco Ciocler celebra legado de Benedito Ruy Barbosa: "Escrevia com a alma"
Ator que estreou na TV em "O Rei do Gado" relembra estilo contemplativo do escritor, morto aos 95 anos por complicações de insuficiência renal crônica
Benedito Ruy Barbosa, autor de algumas das novelas mais marcantes da dramaturgia brasileira, morreu nesta terça-feira (7) aos 95 anos em São Paulo. Segundo boletim médico divulgado pelo Hospital do Coração (HCor), a causa da morte foram complicações decorrentes de uma insuficiência renal crônica.
Para o ator Caco Ciocler, o diferencial de Benedito Ruy Barbosa ia além de apresentar o interior do país ao público dos grandes centros urbanos. Segundo ele, o autor inaugurou um novo olhar para o público brasileiro, marcado pelas sagas de gerações e pelos ciclos da vida.
"Acho que o Benedito também mostrava para o Brasil um tempo diferente, um tempo de existência diferente, uma lógica contemplativa de existência que a televisão não estava acostumada. O Brasil não estava acostumado a se ver na televisão", afirmou o ator em entrevista ao Bastidores CNN desta terça.
Para ele, a força de autores como Benedito não estava em seguir uma fórmula mercadológica ou algorítmica, mas "em um mergulho para dentro".
"Ele não escrevia pensando em cumprir tal e tal regra. Ele escrevia com a alma, conectado com a sua verdade. Isso não tem preço", ressaltou o ator.
Primeiro personagem na TV
Ciocler contou que estreou na televisão justamente com Benedito, aos 24 anos, ainda cursando a Escola de Arte Dramática. Ele foi convocado para a primeira fase de O Rei do Gado, em 1996. Ele deu vida à versão jovem do personagem Geremias Berdinazzi, interpretado na segunda fase da trama por Raul Cortez.
"A primeira fase durava uns sete capítulos e a gente ficou dois meses para gravar esses sete capítulos", recordou.
O ator destacou que, na época, não tinha consciência da raridade daquele processo de produção. "Depois é que eu fui perceber que eu tinha vivenciado uma experiência única. Não estou falando de qualidade, mas de uma lógica de produção que nunca mais consegui viver", disse.
Além de O Rei do Gado, Benedito Ruy Barbosa também escreveu novelas como Pantanal (1990), Renascer (1993) e Terra Nostra (1999). O último trabalho do escritor na televisão foi a novela Velho Chico, de 2016.
Resistência ao ritmo acelerado
Ciocler descreveu o trabalho de Benedito como um "trabalho de resistência" diante de um mundo cada vez mais veloz e descartável.
"A sensação que eu tenho é que ele tentava puxar o freio de mão, dizer que a vida é outra coisa, que a gente não pode abdicar do tempo contemplativo, do tempo de entender o que está acontecendo, da reverência à natureza e às gerações passadas", analisou o ator.
O ator também recordou que voltou a se aproximar do universo de Benedito quase 30 anos depois, ao participar do remake de Pantanal (2022), escrito pelo neto do autor, Bruno Luperi. Na trama, Ciocler interpretou o personagem Gustavo.
"Foi um sucesso estrondoso de novo, porque as pessoas estão viciadas no ritmo acelerado, mas desejantes cada vez mais do que realmente importa na vida, e o que realmente importa na vida precisa de tempo", afirmou.
O amor como tema eterno
Questionado sobre as grandes histórias de amor presentes nas obras de Benedito, como os casais Matteo e Giuliana de Terrra Nostra, e Jove e Juma de Pantanal, Ciocler defendeu que o tema continua sendo capaz de prender a atenção do público. "O amor sempre foi um tema central nas grandes histórias", disse.
Ele observou que, em um tempo em que as relações se tornaram cada vez mais descartáveis, o amor verdadeiro e dedicado presente nas tramas do autor soou como novidade para as novas gerações.
"Eu vi essa geração embasbacada com o Pantanal, como se fosse uma novidade poder contemplar uma paisagem e poder se dedicar a um amor verdadeiro", relatou.


