José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Portugal: onde a liberdade junta o que a política quer separar

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Portugal voltou a transformar a liberdade em rua, corpo e juventude. Celebrando a Revolução dos Cravos, a Avenida da Liberdade em Lisboa, mostrou que uma democracia madura não é a que deixa de ter conflitos, mas a que ainda consegue celebrá-los sem perder o chão comum.

Neste sábado (25), em Lisboa, a Avenida da Liberdade voltou a encher-se de gente para lembrar os 52 anos do 25 de Abril. O percurso é quase uma aula de história a céu aberto: começa no Marquês de Pombal — figura maior do absolutismo reformista português — até os Restauradores, nome dado aos que devolveram a independência a Portugal em 1640.

Entre uma memória de poder e outra de libertação, milhares de pessoas caminharam para celebrar o dia em que terminou a ditadura do Estado Novo e começou o caminho democrático português. A imprensa regional registrou a presença de todas as gerações, cravos, sindicatos, famílias, turistas e uma multidão descendo a avenida em ambiente de festa cívica.

O que se viu ali importa mais do que parece. A liberdade portuguesa deixou de ser apenas memória de uma geração e hoje volta a ser, com surpreendente força, a linguagem comum de várias juventudes. Havia antigos resistentes, trabalhadores organizados, famílias, brasileiros, africanos, turistas, jovens portugueses de várias regiões e militantes de campos diferentes.

Havia esquerda, centro e direita democráticos no mesmo ritual público. Num tempo em que tantas sociedades confundem divergência com guerra civil moral, Portugal ofereceu uma imagem rara: a democracia como lugar onde adversários ainda cabem na mesma avenida.

Esse talvez seja o ponto essencial. No Brasil, as grandes datas nacionais são muitas vezes sequestradas pela divisão.

O 7 de Setembro, por exemplo, deixou de ser apenas uma festa da independência e passou a funcionar, em certos momentos, como território de disputa, suspeita e ocupação simbólica.

Hoje em Portugal, a Revolução dos Cravos pertence, cada vez mais, a todos. Nas presidenciais em fevereiro, Portugal escolheu António José Seguro com 66,83% dos votos, contra 33,17% de André Ventura, numa segunda volta que testou a força da moderação diante do avanço populista.

A descida da Avenida da Liberdade, dois meses depois, confirma essa resposta. Não como propaganda partidária, mas como clima civil. Portugal tem habitação cara, salários baixos, imigração mal resolvida, tensão social e inseguranças, mas mesmo assim mostra que ainda há uma maioria cultural que não quer entregar a liberdade ao ressentimento.

Mas a juventude foi a melhor notícia. O 25 de Abril nasceu dos militares, dos resistentes, dos presos políticos, dos exilados, dos trabalhadores, dos estudantes, das mulheres que puseram cravos nas armas e de um povo que percebeu que a história tinha aberto uma porta. Mas, se ficasse apenas nisso, seria museu.

Ontem, a avenida mostrou outra coisa: Abril já não é só herança. Quando a Juventude Social Democrata (JSD) — organização juvenil oficial do partido que hoje lidera no governo — também desfila na avenida, isso demonstra que em Portugal existe um compromisso entre o futuro e a liberdade conquistada.

Ontem, a principal Avenida da capital Lusa não apagou diferenças, fez melhor. Mostrou que elas podem caminhar sem se destruir.

Entre o Marquês e os Restauradores, entre o passado imperial e a independência recuperada, entre a memória da ditadura e a juventude da democracia, Portugal encontrou uma imagem simples e poderosa.

A liberdade verdadeira não fica parada em monumentos. Desce a avenida, mistura sotaques, atravessa gerações e chega à noite com a estranha alegria das coisas que ainda não se perderam.