José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Em Lisboa, mulheres brasileiras redesenham a linguagem do poder

Participação no debate sobre liderança, tecnologia, negócios e internacionalização não é só um detalhe da programação: é um abalo na geografia tradicional do prestígio

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Há sinais de transformação que chegam disfarçados de agenda empresarial. Quando 400 mulheres ganham centralidade em Lisboa num debate sobre liderança, inteligência artificial e internacionalização, o que se vê não é apenas um evento bem sucedido. É uma mudança de voz, de método e de imaginação no mundo dos negócios.

Durante muito tempo, o mundo corporativo confundiu autoridade e dureza com gravata e abotoadura, formalidade com competência e distância com liderança. Fez-se carreira à sombra de uma liturgia previsível: salas fechadas, vocabulário gasto, hierarquias blindadas e uma estética de poder que premiava menos a inteligência viva do que a capacidade de parecer incontestável.

Esse era um teatro eficiente para o século passado. O problema é que o século passado acabou, embora muita gente ainda não tenha recebido a notícia.

A inteligência artificial, a circulação global de talentos, a velocidade dos mercados e a erosão das velhas mediações começaram a mexer nas paredes desse edifício. Já não basta ocupar cargo, repetir jargão ou herdar prestígio institucional.

O novo ambiente exige outra coisa: leitura fina de contexto, capacidade de atravessar fronteiras, repertório humano, rapidez estratégica, construção de confiança e habilidade para transformar relação em valor. É aí que o protagonismo feminino deixa de ser um adorno progressista e passa a ser uma vantagem competitiva séria.

Por isso, ver mulheres brasileiras no debate em Lisboa sobre liderança, tecnologia, negócios e internacionalização, quando (de novo) o Presidente Lula visita Portugal, não é só um detalhe simpático da programação: é um pequeno abalo na geografia tradicional do prestígio.

É verdade que durante anos, Portugal tem sido apresentado ao brasileiro como entrada na Europa mas hoje, em muitos ambientes, são brasileiras que chegam levando outra coisa: movimento.

Falam de ambição sem culpa, têm flexibilidade sem servilismo, e inteligência relacional sem medo da palavra poder. Trazem, sobretudo, uma capacidade rara de operar ao mesmo tempo na conversa, na estratégia, na imagem, na negociação e na execução.

Há nisso uma beleza política que o corporate antigo ainda não aprendeu a nomear. As competências que durante anos foram tratadas como acessórias, quase domésticas, tornaram-se centrais no coração da economia contemporânea.

Saber ouvir já não é traço decorativo: é ferramenta de decisão. Saber compor ambientes já não é gentileza lateral: é ativo de liderança. Saber circular entre mundos distintos já não é apenas talento social: é arquitetura de negócios.

O empreendedorismo feminino encontra aqui uma oportunidade histórica, mas convém dizer as coisas sem açúcar. A oportunidade não está em ser convidada para a fotografia do futuro. Está em ajudar a decidir como esse futuro será desenhado. Não basta ampliar presença. É preciso disputar critério. Não basta ocupar mesa. É preciso influenciar pauta, linguagem, investimento, prioridade, modelo de expansão, uso da tecnologia, cultura de gestão.

O desafio não é entrar melhor no sistema antigo. É aproveitar a fratura do sistema antigo para construir um sistema menos obtuso.

E talvez seja exatamente isso que as mais de 400 líderes femininas que participam esta semana em Portugal no quinto congresso de mulheres de negócios estejam a captar antes de muita gente — que a nova economia não separa com a mesma nitidez negócios, reputação, comunidade, comunicação, sensibilidade cultural e visão internacional.

O mais interessante é que esse movimento acontece no espaço da língua portuguesa, esse território ainda subestimado por quem pensa o mundo de forma clássica. Há uma energia atlântica nova a formar-se entre Portugal, Brasil e África e ela pode produzir muito mais do que encontros elegantes ou networking de ocasião.

As mulheres brasileiras que ajudam a movimentar esse processo em Lisboa, não estão apenas a participar de um debate, estão a mudar o ponto de partida do debate.

É isso o que está realmente em jogo. Não apenas a ascensão das mulheres. Nem apenas a presença brasileira em Portugal.

O que se desenha é uma alteração mais funda: o futuro dos negócios começa a ser escrito por quem entende que liderar já não é endurecer o ambiente, mas torná-lo legível, móvel e fértil. E nesse novo mapa, há mulheres brasileiras que não chegaram atrasadas ao futuro. Chegaram antes.