Quando a verdade não cabe nos ouvidos do poder
Ha uma recusa em reconhecer que o problema exige renúncia de privilégios, redistribuição de poder, abertura a mediações difíceis

O mundo não sofre de falta de diagnósticos, sofre de excesso de negação. O português António Guterres disse em voz alta aquilo que líderes preferem murmurar em privado: estamos diante de uma crise global, não de crises isoladas. No entanto, o incômodo maior não é a gravidade da frase, mas o silêncio que a envolve. As potências, cada uma trancada no seu espelho, fingem que não o ouvem.
O discurso do secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas) desmonta a ilusão de que ainda vivemos em compartimentos estanques: guerras no Leste Europeu, violência em Gaza, aquecimento do planeta, desigualdade crescente, tudo conectado em uma mesma engrenagem de desordem.
A verdade incômoda é que as regras que sustentaram a cooperação internacional foram sendo corroídas, e, hoje, os Estados agem como se não houvesse árbitro. O multilateralismo, que nasceu como vacina contra a barbárie do século XX, está transformado em um ritual esvaziado.
Mas o gesto de Guterres é quase o de um cronista diante do incêndio: ele aponta as chamas, descreve o cheiro da fumaça, mostra onde o fogo avança. No entanto, a plateia de chefes de Estado parece preferir o espetáculo ao alerta.
Não é falta de dados, de relatórios ou de comissões — é recusa em reconhecer que o problema exige renúncia de privilégios, redistribuição de poder, abertura a mediações difíceis.
O contraponto inevitável é que, apesar da paralisia, ainda existem movimentos de resistência. A recente pressão por reconhecimento de um Estado palestino, as mobilizações climáticas de jovens em várias cidades e a persistência de instituições regionais demonstram que a busca por cooperação não morreu. Há sinais de que a sociedade civil e alguns países médios ainda apostam no diálogo.
Mas a síntese permanece implacável: a ONU só sobreviverá se tiver coragem de obrigar os ouvidos surdos a escutar.
Guterres não grita por retórica, grita porque sabe que o tempo da diplomacia como espetáculo está no fim. Ou os líderes mundiais aceitam a realidade de uma crise indivisível, ou assistirão ao colapso de um sistema que já não esconde as rachaduras.
A verdade incômoda está dita — resta saber se alguém terá coragem de escutá-la. Na verdade, não há nada mais difícil de enxergar do que aquilo que todos veem.
